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Por que as vítimas de abuso religioso não conseguem perceber a manipulação?

  • Foto do escritor: Joberth Rodrigues
    Joberth Rodrigues
  • há 4 horas
  • 5 min de leitura

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista

Durante muito tempo, um dos argumentos mais repetidos para justificar abusos dentro de instituições religiosas foi: "Ninguém colocou uma arma na sua cabeça. Você deu porque quis." Essa frase parece simples, mas esconde um profundo desconhecimento sobre como funcionam os mecanismos psicológicos envolvidos nas relações de manipulação e dependência.

Como psicanalista e pesquisador do trauma religioso, tenho acompanhado pessoas que perderam dinheiro, relacionamentos, identidade e anos de suas vidas dentro de sistemas abusivos. Quase todas carregam a mesma culpa: acreditam que foram responsáveis pelo próprio sofrimento. No entanto, a psicologia mostra que essa realidade é muito mais complexa do que parece.

A cultura de culpar a vítima

Infelizmente, nossa sociedade possui uma tendência histórica de responsabilizar quem sofreu o abuso.

Quando uma pessoa denuncia violência sexual, ainda surgem comentários sobre a roupa que ela usava. Quando alguém cai em um golpe financeiro, muitos dizem que ela foi "ingênua". E quando um ex-fiel relata ter sido manipulado por uma instituição religiosa, imediatamente aparece a frase:

"Você deu porque quis."

Esse raciocínio ignora completamente os processos psicológicos envolvidos na manipulação humana. Quem estuda psicologia, psicanálise, comportamento coletivo ou ciências humanas sabe que decisões nunca acontecem em um vazio. Elas são influenciadas por vínculos afetivos, necessidades emocionais, identificação com grupos e mecanismos sofisticados de persuasão.

O Brasil foi construído sobre uma tradição cristã

Outro ponto importante é compreender o contexto cultural.

O Brasil possui mais de cinco séculos de influência cristã. Desde a infância, a maioria das pessoas cresce ouvindo referências religiosas, frequentando igrejas ou convivendo com familiares religiosos. Segundo o Censo Demográfico de 2010, divulgado pelo IBGE em 2012, cerca de 86% da população brasileira se declara cristã. Isso significa que a religião já faz parte do universo simbólico da maioria das pessoas antes mesmo de qualquer escolha consciente. Por isso, quando alguém atravessa uma crise — seja financeira, familiar, emocional ou existencial — a religião naturalmente aparece como um lugar de acolhimento, esperança e sentido.

Esse movimento não nasce da ingenuidade.

Ele nasce da necessidade humana de encontrar suporte.

O pertencimento é uma necessidade psicológica

Todo ser humano precisa sentir que pertence a algum lugar.

Quando uma pessoa chega fragilizada a uma instituição religiosa, normalmente encontra algo que talvez nunca tenha experimentado:

  • acolhimento;

  • atenção;

  • valorização;

  • amizades;

  • propósito;

  • reconhecimento.

Para alguém que viveu abandono, rejeição ou invalidação emocional na infância, esse encontro pode ser extremamente poderoso.

Pela primeira vez, ela escuta frases como:

  • "Você é especial."

  • "Deus escolheu você."

  • "Seu problema é nosso problema."

Esse pertencimento passa a preencher antigas feridas emocionais. A igreja deixa de ser apenas um lugar de culto e passa a representar segurança, identidade e significado para a existência daquela pessoa.

Os traumas da infância continuam atuando na vida adulta

Na psicanálise, sabemos que experiências infantis não desaparecem apenas porque o tempo passou. Muitas pessoas cresceram em ambientes marcados por abandono, críticas constantes, violência emocional ou ausência de validação afetiva.

Na vida adulta, esses traumas permanecem ativos de maneira inconsciente.

Quando encontram um ambiente que oferece aceitação e pertencimento, tendem a investir intensamente naquela relação. O espaço religioso pode acabar funcionando como um palco onde antigas necessidades emocionais são reencenadas.

Quando o indivíduo desaparece dentro do grupo

É aqui que entram importantes contribuições da psicologia social.

Gustave Le Bon, em Psicologia das Multidões, mostrou como o indivíduo tende a perder parte de sua autonomia quando se identifica profundamente com um grupo.

Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, amplia essa ideia ao demonstrar que a identificação com líderes e figuras de autoridade pode levar a pessoa a renunciar ao próprio julgamento para preservar seu vínculo com a coletividade.

Em outras palavras, o desejo de pertencer passa a ser mais importante do que a própria autonomia.

O indivíduo deixa de perguntar:

"O que eu penso?"

E passa a perguntar:

"O que o grupo espera de mim?" 

Ler a Bíblia nem sempre protege da manipulação

Um argumento muito comum afirma que os fiéis são enganados porque não leem a Bíblia. Na prática clínica, essa explicação raramente corresponde à realidade.

Muitos dos pacientes que atendo liam a Bíblia diariamente.

O problema não estava na leitura.

O problema estava na interpretação.

Toda instituição religiosa ensina uma determinada forma de compreender o texto bíblico. Aos poucos, o fiel aprende a enxergar as Escrituras através das lentes da própria instituição. Assim, mesmo lendo diariamente, interpreta cada passagem conforme o modelo que lhe foi ensinado.

Não basta ter acesso ao texto.

É preciso desenvolver autonomia para questionar a forma como esse texto está sendo interpretado.

Por que a pessoa entrega tudo?

Muitos imaginam que as contribuições financeiras acontecem apenas por ganância.

Essa é uma visão superficial.

Na realidade, diversos fatores atuam simultaneamente.

A pessoa acredita que:

  • está obedecendo a Deus;

  • será recompensada espiritualmente;

  • permanecerá pertencendo ao grupo;

  • demonstrará fidelidade;

  • evitará culpa ou punição espiritual.

Em muitos casos, doar não representa apenas uma decisão financeira.

Representa preservar sua identidade, seu lugar dentro da comunidade e o vínculo afetivo construído ao longo dos anos.

O despertar costuma ser extremamente doloroso

Com o tempo, algumas pessoas começam a perceber que oferecem cada vez mais e recebem cada vez menos.

O acolhimento inicial desaparece.

O reconhecimento diminui.

As promessas não se cumprem.

É nesse momento que surgem os questionamentos.

O problema é que, junto com eles, também aparecem a culpa, a angústia e uma profunda crise de identidade.

Afinal, quem sou eu fora desse sistema?

Essa costuma ser uma das fases mais difíceis do processo de saída do abuso religioso.

Existe vida depois do abuso religioso

Romper com uma instituição abusiva não significa apenas mudar de igreja.

Frequentemente, significa reconstruir toda a própria identidade.

É um processo que exige tempo, elaboração emocional e, muitas vezes, acompanhamento psicológico.

A boa notícia é que essa reconstrução é possível.

Pouco a pouco, a pessoa deixa de viver apenas para corresponder às expectativas de um grupo e começa a descobrir quem realmente é, quais são seus desejos e quais escolhas deseja fazer a partir de agora.

Considerações finais

Quando alguém afirma que uma vítima de abuso religioso "deu porque quis", ignora décadas de estudos sobre comportamento humano, vínculos afetivos, trauma, psicologia das massas e mecanismos de manipulação.

Nenhuma relação abusiva começa com exploração.

Ela começa oferecendo exatamente aquilo que a pessoa mais precisava naquele momento: acolhimento, pertencimento e esperança.

É justamente por isso que tantas pessoas permanecem durante anos em sistemas que, aos poucos, consomem sua autonomia.

Se você viveu essa experiência, saiba que reconstruir sua identidade é possível. O primeiro passo é compreender que reconhecer os mecanismos da manipulação não significa assumir culpa, mas recuperar a liberdade de pensar, desejar e escolher por si mesmo.

Conheça meus livros

Se este tema fez sentido para você, convido-o a conhecer minhas obras sobre manipulação psicológica, abuso religioso e funcionamento da mente humana.

No livro Traumas Religiosos, aprofundo os mecanismos que sustentam relações religiosas abusivas, explico como elas afetam a identidade do indivíduo e apresento caminhos para compreender e superar esse processo.

Você também pode complementar essa leitura com Gatilhos Mentais, onde analiso diversas estratégias psicológicas utilizadas para influenciar comportamentos, formar vínculos de dependência e manter pessoas presas a sistemas de controle. Ambos os livros foram escritos para quem deseja compreender esses fenômenos com profundidade e recuperar sua autonomia emocional.


 
 
 

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SOBRE O JOBERTH RODRIGUES

Sou psicanalista, escritor e palestrante, com atuação voltada ao acolhimento e tratamento de pessoas que sofreram abusos emocionais, psicológicos e espirituais — especialmente em contextos religiosos.

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