O que acontece com a mente de quem sai de uma igreja abusiva?

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista
O que acontece com a mente de quem sai de uma igreja abusiva?
Sair de uma igreja abusiva nem sempre significa sentir alívio imediatamente. Para algumas pessoas, a saída representa apenas o começo de um processo psicológico complexo.
Isso acontece porque ninguém deixa para trás apenas um prédio, uma denominação ou um grupo de pessoas. Quando alguém permaneceu durante anos em uma instituição religiosa que organizava sua rotina, seus relacionamentos, suas escolhas, sua compreensão de Deus e até a maneira como enxergava a si mesmo, romper com esse ambiente pode signific perder, de uma só vez, importantes referências que sustentavam sua vida.
A pessoa saiu da igreja, mas a igreja pode continuar existindo dentro dela.
As reuniões terminaram. As cobranças diminuíram. A liderança já não possui a mesma autoridade concreta. Ainda assim, permanecem medos, culpas, proibições e formas de interpretar o mundo que foram construídas ao longo de muitos anos.
Por isso, algumas pessoas ficam surpresas ao perceber que, depois da saída, não se sentem imediatamente livres. Pelo contrário: podem surgir ansiedade, vazio, medo de Deus, perda de identidade e enorme dificuldade para confiar novamente.
1. A ansiedade pode continuar mesmo depois da saída
Durante muito tempo, a pessoa pode ter vivido em estado constante de vigilância.
“Será que estou desagradando a Deus?”
“Será que estou em pecado?”
“E se alguma coisa ruim acontecer comigo?”
“E se minha vida der errado porque abandonei a igreja?”
“E se aquilo que o pastor dizia realmente acontecer?”
Quando essas mensagens são repetidas durante anos, sair fisicamente do ambiente não significa necessariamente conseguir desligá-las.
O corpo pode continuar reagindo a ameaças que já não estão presentes.
Uma música religiosa, um culto transmitido pela internet, determinada passagem bíblica, a voz de um pregador ou até passar em frente a uma igreja podem despertar angústia.
A pessoa racionalmente sabe que saiu, mas emocionalmente ainda pode viver como se estivesse sendo observada, julgada ou ameaçada.
A liberdade externa pode chegar antes da liberdade interna.
2. Surge um estranho vazio espiritual
Existe ainda outro fenômeno pouco compreendido por quem observa a situação de fora.
A pessoa desejava desesperadamente sair daquele ambiente. Quando finalmente consegue, sente um enorme vazio.
Isso pode produzir uma pergunta angustiante:
“Se eu queria tanto sair, por que agora estou me sentindo tão mal?”
Porque mesmo uma instituição abusiva pode ter ocupado funções importantes na organização da vida psíquica.
Ela oferecia respostas.
Dizia quem era Deus, o que era certo, o que era errado, como se vestir, com quem se relacionar, onde estar aos domingos, como utilizar o dinheiro, como interpretar acontecimentos e até quais pensamentos deveriam ser considerados aceitáveis.
De repente, aquele universo desaparece.
É possível que a pessoa não queira voltar para a instituição e, ao mesmo tempo, sinta falta da segurança que aquele sistema de certezas proporcionava.
Isso não é necessariamente saudade do abuso.
Pode ser o sofrimento provocado pela perda de um mundo conhecido.
3. “Quem sou eu agora?” — a perda da identidade
Talvez uma das consequências mais profundas apareça quando religião, função e identidade se misturaram durante muitos anos.
A pessoa não apenas frequentava uma igreja.
Ela era pastor.
Era obreiro.
Era missionária.
Era esposa de pastor.
Era líder.
Era evangelista.
Era aquela pessoa que sempre estava disponível.
Sua posição dentro da instituição fornecia reconhecimento, pertencimento, rotina, vínculos e sentido para a própria existência.
Quando essa função desaparece, uma pergunta pode emergir:
Quem sou eu quando não estou servindo ninguém?
Esse problema pode ser ainda mais intenso para quem entrou muito jovem ou nasceu dentro daquele ambiente. A pessoa teve poucas oportunidades de descobrir seus próprios gostos, desejos, valores e projetos fora do universo religioso.
Por isso, depois da saída, escolhas aparentemente simples podem provocar angústia.
O que eu quero vestir?
Do que realmente gosto?
O que quero fazer com meu dinheiro?
Que profissão desejo seguir?
Em que acredito?
Quais decisões são realmente minhas?
A reconstrução da identidade exige justamente aquilo que ambientes autoritários frequentemente dificultam: a possibilidade de desejar por conta própria.
4. A pessoa sai da igreja, mas continua com medo de Deus
Essa talvez seja uma das marcas mais dolorosas.
Algumas pessoas conseguem questionar a instituição antes de conseguirem questionar a imagem de Deus que receberam dela.
Elas reconhecem:
“Meu pastor me manipulou.”
“Fui explorado.”
“Usaram meu medo.”
“Fizeram promessas que não poderiam fazer.”
Mas alguma coisa continua dizendo internamente:
“E se Deus estiver contra mim?”
É possível deixar de acreditar na autoridade do líder e continuar esperando uma punição divina.
Se surge uma doença, pensa: “Será que foi porque saí?”
Se perde o emprego: “Será que estou pagando pela minha decisão?”
Se enfrenta uma dificuldade financeira: “Será que é porque parei de dar ofertas?”
Se algo acontece com alguém da família: “Será que Deus está me cobrando?”
A antiga autoridade externa pode transformar-se em uma espécie de vigilância interna.
A pessoa já não precisa que alguém esteja constantemente dizendo que Deus vai castigá-la. Ela aprendeu a fazer isso consigo mesma.
É aqui que uma leitura psicanalítica pode ajudar. Freud descreveu o Supereu como uma instância relacionada às proibições, exigências, ideais e sentimentos de culpa. Em contextos religiosos abusivos, determinadas exigências podem ser profundamente internalizadas.
O líder pode desaparecer da vida da pessoa, mas sua voz continuar funcionando dentro dela.
5. Depois do abuso, confiar novamente pode ser muito difícil
Existe ainda uma ferida nos vínculos.
A pessoa confiou em alguém.
Contou segredos.
Confessou medos.
Entregou dinheiro.
Abriu sua intimidade.
Obedeceu orientações.
Talvez tenha tomado decisões importantes acreditando que determinada liderança representava a vontade de Deus.
Quando percebe que essa confiança foi utilizada para controlá-la, alguma coisa pode se romper.
E a desconfiança nem sempre fica restrita àquela instituição.
A pessoa começa a pensar:
“Será que todo pastor é assim?”
“Será que toda igreja quer me manipular?”
“Será que alguém realmente quer me ajudar?”
“Será que posso confiar em um psicólogo?”
“Será que posso confiar nas pessoas?”
Em alguns casos, a vítima oscila entre dois extremos: confiar rapidamente demais em uma nova autoridade ou não conseguir confiar em absolutamente ninguém.
Reconstruir a capacidade de confiar exige tempo porque não se trata simplesmente de encontrar “uma igreja melhor”. Trata-se também de reconstruir a possibilidade de estabelecer vínculos sem entregar ao outro o direito de decidir quem você deve ser.
Sair não significa estar psicologicamente fora
Essa talvez seja a compreensão mais importante.
Existe uma diferença entre romper com uma instituição e elaborar aquilo que foi vivido dentro dela.
Uma pessoa pode estar há meses ou anos longe de determinada igreja e continuar organizando sua vida em função dela.
Ainda sente culpa.
Ainda tem medo.
Ainda sonha com aquele ambiente.
Ainda tenta provar que tomou a decisão certa.
Ainda teme a condenação.
Ainda escuta internamente a voz daqueles que a controlavam.
Por isso, a saída não deve ser compreendida como um único acontecimento.
Existe a saída física.
Existe a saída social.
Existe a saída teológica.
E existe uma saída psíquica, que pode ser muito mais demorada.
O objetivo não é simplesmente abandonar a fé
É importante fazer uma distinção.
Uma experiência religiosa abusiva não significa que toda experiência religiosa seja necessariamente abusiva. Da mesma forma, elaborar um trauma religioso não exige obrigatoriamente abandonar a espiritualidade.
Algumas pessoas continuarão cristãs.
Outras procurarão outra comunidade.
Algumas reconstruirão completamente sua compreensão de Deus.
Outras decidirão não pertencer mais a nenhuma religião.
O trabalho psicológico não deveria determinar qual dessas respostas é a correta.
A questão fundamental é outra:
Essa escolha está sendo feita por desejo ou por medo?
Talvez uma das maiores conquistas depois de uma experiência religiosa abusiva seja justamente recuperar o direito de fazer perguntas, discordar, estabelecer limites, mudar de ideia e construir uma vida que não precise ser permanentemente autorizada por alguém.
Porque sair de uma igreja abusiva não é apenas aprender a viver sem aquela instituição.
É, muitas vezes, aprender a existir novamente como sujeito.







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