Por que algumas pessoas não conseguem relaxar depois que saem de uma igreja abusiva?

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista
Sair de uma igreja abusiva pode trazer uma sensação profunda de liberdade. A pessoa finalmente não precisa mais cumprir uma agenda religiosa exaustiva, prestar contas de suas escolhas, temer constantemente a opinião de uma liderança ou viver tentando alcançar um padrão espiritual impossível.
Ela saiu.
A vida começa a melhorar.
Mas algo estranho acontece: ela não consegue relaxar.
Quando tudo está tranquilo, sente que alguma coisa ruim está para acontecer. Quando a vida financeira melhora, começa a pensar que poderá perder tudo. Quando encontra um relacionamento saudável, teme que aquilo não dure. Quando viaja, descansa ou simplesmente aproveita um final de semana sem obrigações religiosas, pode surgir uma culpa difícil de explicar.
É como se a felicidade precisasse ser vigiada.
Como se a tranquilidade fosse perigosa.
Como se, depois de um período bom, inevitavelmente viesse uma cobrança.
Para compreender esse fenômeno, precisamos perceber que sair fisicamente de um ambiente não significa que nosso psiquismo abandone imediatamente tudo aquilo que aprendeu nele.
Anos vivendo à espera de alguma coisa
Imagine alguém que passou vinte ou trinta anos ouvindo mensagens como:
“Vigiai.”
“Não dê brecha.”
“O diabo está esperando uma oportunidade.”
“Cuidado para não cair.”
“Quem está de pé, cuide para que não caia.”
“Não deixe de buscar.”
“Você não sabe o dia de amanhã.”
“Deus pode tirar aquilo que lhe deu.”
“Se você se afastar, poderá perder a proteção.”
Isoladamente, algumas dessas frases podem fazer parte de determinada tradição religiosa sem necessariamente produzir sofrimento psicológico. O problema aparece quando ameaça, culpa e medo se transformam nos principais instrumentos utilizados para manter o indivíduo obediente.
Nesse ambiente, a pessoa pode aprender que nunca é hora de baixar a guarda.
Se está sofrendo, precisa buscar mais.
Se está bem, precisa tomar cuidado para não cair.
Se alguma coisa ruim acontece, precisa investigar onde errou.
E, se nada ruim está acontecendo, talvez seja justamente a hora de ficar ainda mais vigilante.
Pouco a pouco, o sujeito pode aprender uma regra silenciosa:
“Eu não estou completamente seguro.”
E essa regra pode continuar funcionando mesmo depois que ele abandona a instituição.
O perigo terminou, mas o estado de alerta permaneceu
A psiquiatra Judith Herman, ao estudar experiências traumáticas, mostrou a importância do estado de alerta persistente que pode permanecer depois de experiências ameaçadoras. Em contextos traumáticos, o organismo aprende a detectar sinais de perigo e pode continuar reagindo mesmo quando a ameaça original já não está presente.
É importante fazer uma distinção: isso não significa que toda pessoa que saiu de uma religião tenha necessariamente um transtorno traumático, nem que toda experiência religiosa produza hipervigilância.
Estamos falando especificamente de pessoas submetidas por longos períodos a ambientes marcados por medo, ameaça, controle e insegurança.
Nesses casos, podemos compreender por que algumas pessoas dizem:
“Eu sei que está tudo bem, mas não consigo sentir que está tudo bem.”
Essa frase é fundamental.
Racionalmente, a pessoa percebe que não existe uma ameaça concreta.
Mas emocionalmente continua preparada para alguma coisa.
Ela pode descansar, mas não relaxa.
Pode viajar, mas permanece preocupada.
Pode prosperar, mas espera perder.
Pode amar, mas se prepara para ser abandonada.
Pode estar feliz e, justamente por estar feliz, começar a sentir medo.
O sofrimento não está necessariamente no que está acontecendo.
Está também naquilo que ela espera que aconteça.
“Está tudo bom demais”
Essa talvez seja uma das frases que mais revelam esse processo:
“Está tudo bom demais.”
Observe o que existe por trás dessa expressão.
A pessoa não está apenas reconhecendo que vive um momento positivo. Existe uma desconfiança:
“Se está bom demais, alguma coisa ruim deve estar chegando.”
É como se existisse uma dificuldade de permanecer na experiência do prazer sem antecipar sua interrupção.
A pessoa consegue um emprego melhor:
“Será que vou perder?”
A vida financeira começa a melhorar:
“Alguma coisa vai acontecer.”
Encontra alguém que a trata bem:
“Isso não vai durar.”
Os filhos estão bem:
“Tenho medo de acontecer alguma coisa.”
Está há meses vivendo tranquilamente:
“Isso está estranho.”
Perceba algo importante: a realidade não apresentou necessariamente uma ameaça. A ameaça está sendo antecipada.
O sofrimento chega antes do acontecimento.
Às vezes, o acontecimento nem chega.
Mas a pessoa sofreu como se tivesse chegado.
Freud e o supereu: quando o fiscal passa a morar dentro de nós
A psicanálise nos oferece outra possibilidade de compreensão.
Freud desenvolveu o conceito de supereu para pensar, entre outras coisas, a internalização de proibições, exigências e ideais.
Isso nos ajuda muito a compreender determinadas experiências de abuso religioso.
No início, existe uma autoridade externa dizendo:
“Não faça.”
“Não pense.”
“Não questione.”
“Isso é pecado.”
“Deus não se agrada disso.”
“Você precisa fazer mais.”
Mas uma autoridade externa repetida durante anos pode ser internalizada.
Chega um momento em que o pastor não precisa mais estar presente.
A instituição não precisa estar presente.
A pessoa pode nem frequentar mais aquela igreja.
O fiscal agora está dentro.
Ela própria se vigia.
Ela própria se acusa.
Ela própria se pune.
Ela própria sente culpa.
Por isso, algumas pessoas dizem:
“Eu nem acredito mais nisso, mas ainda sinto medo.”
Essa frase aparentemente contraditória faz muito sentido psicologicamente.
Uma crença pode ser questionada intelectualmente antes que seus efeitos afetivos tenham sido suficientemente elaborados.
A pessoa diz:
“Eu sei que Deus não vai me castigar por isso.”
Mas sente medo.
“Eu sei que descansar não é errado.”
Mas sente culpa.
“Eu sei que não preciso pedir autorização.”
Mas sente insegurança quando decide sozinha.
É justamente aqui que percebemos que sair de um sistema de controle pode ser apenas uma parte do processo.
Quando a voz do líder continua falando dentro de você
Também podemos aproximar essa discussão de Lacan e da importância que a linguagem e o Outro possuem na constituição do sujeito.
Durante anos, determinadas palavras podem ter adquirido enorme autoridade para aquela pessoa.
Não eram apresentadas simplesmente como opiniões de um pastor.
Eram apresentadas como:
“Deus está falando.”
Isso muda muita coisa.
Discordar de um líder humano já pode ser difícil.
Mas e quando discordar dele foi apresentado durante décadas como discordar do próprio Deus?
A palavra da autoridade religiosa pode adquirir um peso enorme.
Depois que a pessoa sai, aquele pastor talvez nunca mais fale com ela.
Mas algumas de suas frases continuam aparecendo.
“Você vai voltar.”
“Lá fora você vai sofrer.”
“Quem abandona o altar perde a proteção.”
“Você ainda vai lembrar das minhas palavras.”
Nesse momento, podemos fazer uma pergunta importante:
Quem está falando dentro de você quando você sente medo?
É realmente aquilo em que você acredita hoje?
Ou é a repetição de uma voz que você ouviu durante anos?
A dificuldade de aproveitar coisas boas
Uma das consequências mais dolorosas desse processo é a dificuldade de viver plenamente experiências positivas.
A pessoa passou tanto tempo se preparando para a batalha que agora não sabe o que fazer quando não existe batalha.
Ela aprendeu a sobreviver.
Mas talvez ainda esteja aprendendo a viver.
Descansar pode parecer preguiça.
Colocar-se em primeiro lugar pode parecer egoísmo.
Gastar dinheiro consigo pode provocar culpa.
Viajar em vez de participar de uma atividade religiosa pode parecer errado.
Dizer “não” pode produzir ansiedade.
Ter prazer pode despertar a sensação de que alguma coisa está fora do lugar.
Isso ajuda a compreender por que algumas pessoas saem de ambientes religiosos controladores e continuam vivendo como se precisassem prestar contas a alguém.
Alguns sinais de que o estado de alerta ainda permanece
Existem algumas experiências que merecem atenção. Nenhuma delas, isoladamente, estabelece um diagnóstico. Mas podem servir como pontos de reflexão:
dificuldade de relaxar quando tudo está bem;
sensação frequente de que “alguma coisa ruim vai acontecer”;
medo de que Deus castigue você depois de determinadas escolhas;
culpa ao descansar ou aproveitar a vida;
dificuldade de tomar decisões sem buscar aprovação;
medo excessivo de errar;
interpretar problemas cotidianos como possíveis punições;
sentir ansiedade quando discorda de uma antiga doutrina;
dificuldade de confiar em períodos de felicidade;
necessidade de estar constantemente fazendo alguma coisa para sentir que está “em dia”;
medo de que abandonar determinadas práticas religiosas coloque sua família em perigo;
vontade de retornar à antiga instituição quando acontece alguma tragédia.
Talvez você reconheça vários desses sinais.
A pergunta, então, não precisa ser:
“O que há de errado comigo?”
Uma pergunta mais produtiva pode ser:
“O que eu aprendi durante todos aqueles anos que ainda está organizando a maneira como interpreto minha vida?”
O risco de voltar aumenta nos momentos de sofrimento
Existe um ponto especialmente delicado nesse processo.
Uma pessoa pode passar anos fora de determinada instituição e acreditar que rompeu completamente com aquele sistema.
Até que a vida apresenta uma crise.
Um filho adoece.
O casamento termina.
O emprego é perdido.
Surge uma dificuldade financeira.
Alguém da família morre.
É justamente nesses momentos que antigas respostas podem reaparecer.
Se durante vinte anos a pessoa aprendeu que diante do desespero precisava correr para o altar, fazer uma campanha, realizar um propósito ou procurar uma autoridade religiosa, não é estranho que essas respostas reapareçam quando ela se sente vulnerável.
E existe um agravante.
Familiares ou amigos que permaneceram na instituição podem dizer:
“Está vendo o que aconteceu depois que você saiu?”
A partir daí, um acontecimento normal da existência humana pode ser reinterpretado como castigo.
A doença deixa de ser apenas doença.
O desemprego deixa de ser apenas desemprego.
A crise conjugal deixa de ser apenas uma crise.
Tudo passa a confirmar uma antiga narrativa:
“Você saiu e perdeu a proteção.”
É assim que o medo pode abrir novamente a porta para um sistema do qual a pessoa havia conseguido sair.
Reconstruir não significa abandonar a fé
É importante dizer isso claramente.
Questionar os efeitos de uma experiência religiosa abusiva não significa atacar a religião nem afirmar que toda experiência de fé é prejudicial.
Para muitas pessoas, a espiritualidade oferece pertencimento, esperança, significado, vínculos e recursos importantes para enfrentar a vida.
O problema está na utilização da fé como instrumento de coerção, medo e controle.
Da mesma maneira, reconstruir a autonomia não exige necessariamente abandonar Deus, a espiritualidade ou uma comunidade religiosa.
Pode significar justamente construir uma relação diferente com tudo isso.
Uma relação na qual seja possível perguntar.
Discordar.
Escolher.
Dizer não.
Descansar.
E perceber que autonomia não precisa ser sinônimo de rebeldia.
Talvez você precise aprender que está tudo bem
Para alguém que viveu durante anos em estado de vigilância, a tranquilidade pode inicialmente parecer estranha.
Talvez seja necessário aprender algo que parece muito simples:
nem toda felicidade anuncia uma tragédia.
Nem todo erro exige punição.
Nem toda dificuldade é castigo.
Nem toda dúvida é falta de fé.
Nem todo descanso é negligência.
Nem toda escolha precisa ser autorizada.
E nem todo silêncio significa que alguma coisa ruim está chegando.
Reconstruir-se depois de uma experiência religiosa abusiva não significa apagar a própria história. Significa poder olhar para ela e distinguir aquilo que você deseja conservar daquilo que continua produzindo sofrimento.
Esse processo pode exigir tempo. Em alguns casos, acompanhamento psicológico também pode ajudar a pessoa a compreender seus medos, reconhecer gatilhos e reconstruir formas mais autônomas de se relacionar consigo mesma, com os outros e, se desejar, com sua própria espiritualidade.
Quando você não precisa mais sobreviver
Talvez durante muitos anos você tenha aprendido a estar preparado.
Preparado para o ataque espiritual.
Preparado para a tentação.
Preparado para perder a salvação.
Preparado para o castigo.
Preparado para o pior.
O problema é que ninguém consegue viver plenamente quando está constantemente se preparando para uma ameaça.
Por isso, uma das etapas da reconstrução pode ser justamente descobrir que você não precisa continuar sobrevivendo a um perigo que já passou.
Talvez você não esteja esperando o pior porque exista alguma coisa ruim prestes a acontecer.
Talvez você simplesmente tenha aprendido, durante muitos anos, que relaxar era perigoso.
E agora precisa aprender algo novo: é possível estar bem sem esperar uma punição por isso.







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