Você saiu da igreja, mas aprendeu a viver fora dela?

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista
Como comunidades religiosas fechadas podem limitar o repertório social e por que algumas pessoas se sentem perdidas depois que saem
Sair de uma comunidade religiosa abusiva nem sempre significa apenas deixar de frequentar um templo. Para algumas pessoas, significa abandonar um mundo inteiro.
Durante anos — às vezes décadas — quase todas as suas relações foram construídas dentro daquele ambiente. Os amigos estavam na igreja. Os finais de semana eram ocupados pela igreja. Os relacionamentos amorosos surgiam dentro da igreja. Os livros eram indicados pela igreja. As músicas eram escolhidas a partir daquilo que a igreja considerava adequado. As festas, viagens, conversas, roupas e até determinadas fontes de informação podiam passar pelo mesmo filtro.
Quando essa pessoa finalmente sai, pode experimentar algo aparentemente contraditório: ela conquistou liberdade, mas não sabe muito bem o que fazer com ela.
Não necessariamente porque lhe falte capacidade para se relacionar. Talvez lhe tenha faltado, durante muitos anos, a possibilidade de desenvolver um repertório social mais amplo.
Quando a comunidade religiosa se transforma em uma bolha
Toda comunidade cria códigos de pertencimento.
Isso acontece em famílias, grupos profissionais, clubes, partidos, empresas e também em religiões. Ter valores compartilhados e uma identidade coletiva não constitui, por si só, um problema.
A questão muda quando pertencer exige reduzir progressivamente o contato com tudo aquilo que é diferente.
Em ambientes religiosos abusivos, o isolamento nem sempre aparece na forma de uma ordem explícita:
“Afaste-se da sua família.”
“Não tenha amigos fora daqui.”
Pode ser muito mais sutil.
“Eles não entendem sua fé.”
“Não aceite conselho de quem não tem o Espírito.”
“Cuidado com essas amizades.”
“Você precisa andar com pessoas da mesma fé.”
“Essas pessoas podem esfriar você espiritualmente.”
Aos poucos, pode surgir uma divisão muito rígida entre “nós” e “eles”.
Dentro estão os escolhidos, os espirituais, aqueles que possuem a verdade.
Fora estão “o mundo”, as más influências, aqueles que não compreendem a fé ou que podem colocar em risco aquilo que foi conquistado espiritualmente.
O resultado pode ser uma redução gradual da pluralidade das relações.
Quando tudo passa pelo mesmo filtro
Imagine alguém que passa vinte anos nesse ambiente.
Ela trabalha durante a semana, mas quase todo o seu tempo livre está relacionado à instituição religiosa.
Vai à igreja três ou quatro vezes por semana.
Nos outros dias, participa de grupos e atividades.
Seus melhores amigos são da comunidade.
Casa-se com alguém da mesma igreja.
As pessoas que frequentam sua casa pertencem ao mesmo grupo.
Os livros que lê são de autores recomendados naquele ambiente.
As músicas que escuta são religiosas.
Os vídeos que assiste reforçam a mesma visão de mundo.
Em alguns contextos, até aquilo que veste, os lugares que frequenta e os meios pelos quais interpreta acontecimentos sociais podem sofrer forte influência do grupo.
Perceba que não estamos falando apenas de crenças religiosas.
Estamos falando da construção de um repertório social.
Quanto mais fechado esse universo se torna, menores podem ser as oportunidades de entrar em contato com pessoas que pensam, vivem e interpretam o mundo de maneiras diferentes.
E isso pode produzir consequências que somente serão percebidas depois da saída.
O isolamento também aparece em relações amorosas abusivas
Existe uma comparação importante que pode nos ajudar a compreender esse processo.
Algumas características encontradas em comunidades religiosas abusivas lembram mecanismos presentes em relacionamentos afetivos controladores.
Isso não significa dizer que religião e relacionamento abusivo sejam fenômenos idênticos. Mas existe uma semelhança importante: o isolamento pode aumentar a dependência.
Imagine alguém que começa um relacionamento amoroso.
No início, o parceiro diz:
“Não gosto daquela sua amiga.”
Depois:
“Sua mãe interfere demais na nossa relação.”
Mais tarde:
“Seus amigos não querem o nosso bem.”
Pouco a pouco, a pessoa vai perdendo referências externas.
Até que chega um momento em que praticamente todas as suas relações passam pelo parceiro.
Por que isso é perigoso?
Porque relações externas também funcionam como referências.
Um amigo pode dizer:
“Isso que ele está fazendo com você não é normal.”
Uma irmã pode perguntar:
“Por que você precisa pedir autorização para fazer isso?”
Um colega pode mostrar:
“Existem outras maneiras de viver.”
Quanto menores forem as referências externas, mais difícil pode ser comparar aquilo que se vive com outras possibilidades.
Algo semelhante pode acontecer em comunidades religiosas muito fechadas.
A pessoa não perde apenas amigos.
Ela perde pontos de comparação.
Quando a religião ensina até como você deve cumprimentar alguém
Alguns efeitos desse processo aparecem em situações aparentemente banais.
Eu conheço isso também pela minha própria experiência.
Durante muitos anos da minha vida religiosa, determinadas formas de contato entre homens e mulheres recebiam uma atenção muito grande. Um gesto comum de aproximação poderia facilmente ganhar uma interpretação sexual.
Hoje pode acontecer de alguém me apresentar uma mulher e ela se aproximar naturalmente para me cumprimentar com um beijo no rosto.
Para muitas pessoas, isso é apenas uma convenção social.
Mas eu ainda posso experimentar certo desconforto.
Por quê?
Porque durante muitos anos aquele gesto recebeu outro significado dentro do ambiente em que vivi.
Racionalmente, eu sei:
“É apenas um cumprimento.”
Mas existe uma aprendizagem anterior associando proximidade física entre homem e mulher a intenções que não necessariamente existem.
Esse pequeno exemplo ajuda a compreender algo muito maior.
Nós não aprendemos apenas comportamentos. Aprendemos significados.
E esses significados não desaparecem automaticamente quando mudamos de ambiente.
Quando o mundo real não cabe mais nas antigas categorias
Depois da saída, começam a acontecer encontros que talvez tenham sido raros durante muitos anos.
Na faculdade, a pessoa conhece alguém de outra religião.
No trabalho, faz amizade com um ateu.
No condomínio, encontra uma família que possui valores diferentes dos seus.
Um colega a convida para um aniversário em um bar.
Uma amiga fala abertamente sobre sexualidade.
Alguém pede uma cerveja durante o almoço.
Uma pessoa que ela aprendeu a considerar “do mundo” demonstra generosidade, ética e respeito.
Então alguma coisa começa a acontecer.
A realidade deixa de caber perfeitamente nas antigas categorias.
A pessoa começa a descobrir que alguém pode pensar completamente diferente dela e ainda assim ser uma boa pessoa.
Pode discordar de alguém e continuar gostando dessa pessoa.
Pode ouvir uma opinião sem precisar adotá-la.
Pode conhecer outra religião sem abandonar sua própria fé.
Pode conviver com quem não acredita em Deus sem precisar sentir que sua crença está ameaçada.
Essas experiências ampliam o repertório.
Talvez não seja falta de habilidade social
Por isso, precisamos ter cuidado ao dizer que alguém que saiu de uma comunidade religiosa fechada “não sabe se relacionar”.
Talvez exista uma formulação melhor:
essa pessoa teve menos oportunidades de desenvolver determinados repertórios sociais.
Imagine alguém que passou trinta anos convivendo predominantemente com pessoas que compartilhavam praticamente a mesma linguagem, moralidade, crenças e visão de mundo.
Depois da saída, ela precisa aprender a circular em ambientes muito mais plurais.
Isso pode gerar insegurança.
“O que eu digo?”
“Como devo me comportar?”
“Será que estou fazendo alguma coisa errada?”
“Será que posso estar aqui?”
“Será que essa pessoa vai interpretar mal meu comportamento?”
Aquilo que outras pessoas aprenderam gradualmente durante décadas talvez precise ser descoberto por ela depois dos 30, 40 ou 50 anos.
Isso não significa incapacidade.
Significa aprendizagem.
Winnicott e o perigo de viver apenas para corresponder
Donald Winnicott oferece uma contribuição interessante para pensarmos esse processo.
Ao discutir o desenvolvimento do self, Winnicott mostrou como uma adaptação excessiva às exigências ambientais pode prejudicar a espontaneidade do sujeito.
Essa perspectiva ajuda a formular uma pergunta importante sobre ambientes religiosos controladores:
quanto de si uma pessoa precisou silenciar para continuar pertencendo?
Imagine alguém que passou anos aprendendo:
“Não questione.”
“Obedeça.”
“Sirva.”
“Esteja disponível.”
“Negue a si mesmo.”
“Não seja rebelde.”
“Não coloque sua vontade acima da vontade de Deus.”
Dependendo de como essas mensagens são utilizadas, a pessoa pode aprender muito bem a identificar aquilo que esperam dela.
Mas talvez tenha enorme dificuldade diante de outra pergunta:
“O que eu quero?”
Ela aprendeu a servir, mas não a estabelecer limites.
Aprendeu a obedecer, mas não a discordar.
Aprendeu a estar disponível, mas não a dizer “não”.
Aprendeu a identificar as necessidades dos outros, mas pode ter dificuldade para reconhecer as próprias.
A pessoa sai da igreja, mas o padrão pode continuar
E aqui aparece uma consequência importante.
O sujeito pode abandonar a instituição religiosa, mas continuar reproduzindo fora dela a posição que aprendeu dentro dela.
Por exemplo:
No trabalho, aceita tarefas que não são responsabilidade sua porque não consegue dizer “não”.
Em uma amizade, está sempre disponível para ouvir, ajudar e socorrer, mas não percebe que o outro nunca oferece reciprocidade.
Em um relacionamento amoroso, aceita comportamentos que a incomodam porque acredita que confrontar significa ser egoísta.
Quando alguém ultrapassa seus limites, sente culpa ao se posicionar.
Pode até entrar em outra relação controladora.
Mudou o cenário.
Mudaram os personagens.
Mas determinada maneira de se colocar diante do outro permaneceu.
Por isso, reconstruir-se depois de uma experiência abusiva também envolve aprender que:
bondade não é submissão.
Generosidade não significa disponibilidade permanente.
Discordar não significa desrespeitar.
Estabelecer limites não significa ser egoísta.
E dizer “não” também pode ser uma expressão de autonomia.
A ingenuidade diante do mundo
Existe ainda outro aspecto delicado.
Uma comunidade fechada pode ensinar que o mundo exterior é extremamente perigoso e, paradoxalmente, deixar a pessoa pouco preparada para lidar com alguns perigos reais.
Isso acontece porque proteção não é a mesma coisa que desenvolvimento de autonomia.
Se durante anos todas as decisões foram mediadas por autoridades — o que vestir, com quem namorar, onde frequentar, em quem confiar, o que ler — a pessoa pode ter tido poucas oportunidades de aprender a avaliar situações por conta própria.
Quando sai, pode oscilar entre dois extremos.
De um lado:
“Não posso confiar em ninguém.”
Do outro:
“Agora preciso experimentar tudo.”
Mas autonomia não é simplesmente fazer o contrário daquilo que a instituição ensinou.
Autonomia envolve aprender a avaliar relações, perceber riscos, estabelecer limites, reconhecer manipulações e assumir progressivamente a responsabilidade pelas próprias escolhas.
Por que algumas pessoas sentem tanta falta depois que saem?
Existe uma pergunta frequentemente feita a quem deixou uma comunidade abusiva:
“Se era tão ruim, por que você sente falta?”
Porque talvez a pessoa não esteja sentindo falta do abuso.
Ela pode estar sentindo falta do pertencimento.
Imagine perder, praticamente ao mesmo tempo:
os amigos;
a rotina;
os encontros semanais;
as conversas;
os eventos;
as festas;
as músicas;
as referências;
os lugares onde passava o final de semana;
as pessoas para quem telefonava quando estava triste;
e até a maneira como se identificava socialmente.
A pessoa não perdeu simplesmente uma igreja.
Ela perdeu um ecossistema social inteiro.
Por isso, sentir saudade não significa necessariamente desejar voltar ao controle.
É possível sentir falta das pessoas e não querer novamente a submissão.
Sentir falta da comunidade e não querer novamente o medo.
Sentir falta das músicas e não querer novamente a culpa.
Sentir falta de pertencer e, ao mesmo tempo, reconhecer que aquele pertencimento custava caro demais.
A importância da pluralidade
Reconstruir a vida social depois de uma experiência religiosa abusiva não significa abandonar a fé.
Também não significa rejeitar todas as pessoas religiosas ou evitar qualquer comunidade.
Significa ampliar o mundo.
Conhecer pessoas diferentes.
Construir amizades fora do antigo círculo.
Ler autores que pensam de maneiras distintas.
Frequentar novos ambientes.
Descobrir novos interesses.
Conversar com pessoas de outras tradições religiosas.
Conviver com pessoas sem religião.
Encontrar pessoas com quem você concorda profundamente e outras com quem discorda completamente.
A pluralidade oferece algo muito importante:
referências.
Quando conhecemos diferentes maneiras de viver, começamos a perceber que aquilo que nos apresentaram como a única possibilidade talvez fosse apenas uma entre várias.
E existe uma habilidade extremamente importante que pode nascer desse processo:
aprender a conviver com a diferença sem transformar a diferença em ameaça.
Reconstruir também significa reaprender a se relacionar
Para algumas pessoas, a reconstrução depois do abuso religioso precisará passar pelas relações sociais.
Talvez seja necessário aprender novamente a fazer amizades.
Aprender a confiar sem se submeter.
Aprender a discordar sem romper.
Aprender a estabelecer limites sem sentir culpa.
Aprender a receber afeto sem acreditar que existe alguma intenção escondida.
Aprender que você pode estar perto de alguém que pensa diferente sem precisar converter essa pessoa — e sem precisar ser convertido por ela.
Aprender que nem todo relacionamento precisa de hierarquia.
E, principalmente, descobrir que pertencer não deveria exigir o desaparecimento de quem você é.
Uma comunidade saudável pode fazer parte da vida do sujeito.
Uma comunidade abusiva tende a querer ocupar a vida inteira.
Talvez essa seja uma diferença fundamental.
Você saiu da igreja. E agora?
Sair pode ser apenas o começo.
Depois vem uma pergunta muito mais complexa:
quem sou eu fora daquele grupo?
Do que eu realmente gosto?
Que músicas quero ouvir?
Que livros quero ler?
Que lugares quero frequentar?
Com quais pessoas quero construir relações?
Quais valores continuam fazendo sentido para mim?
Quais crenças são realmente minhas?
Quais limites quero estabelecer?
Essas respostas talvez não apareçam imediatamente.
E não há problema nisso.
Quem passou muitos anos recebendo respostas prontas pode precisar de tempo para descobrir suas próprias respostas.
Talvez reconstruir a vida depois de uma experiência religiosa abusiva não seja simplesmente aprender a viver sem aquela igreja.
Pode significar aprender a existir sem precisar que uma instituição determine permanentemente como você deve vestir, pensar, sentir, amar, escolher e se relacionar.
E talvez uma das perguntas mais importantes desse processo seja:
“Quanto da minha vida foi realmente escolhido por mim?”
Porque sair de uma bolha não significa necessariamente perder a fé.
Às vezes significa apenas descobrir que o mundo é muito maior do que aquilo que permitiram que você conhecesse.







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