Quando se colocar em primeiro lugar parece egoísmo: o desejo depois do abuso religioso

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista
Uma das marcas que observo com frequência em pessoas que viveram durante muitos anos em contextos religiosos abusivos é a dificuldade de se colocar em primeiro lugar.
Isso pode ser ainda mais intenso entre aqueles que nasceram dentro de uma instituição religiosa ou ingressaram nela ainda muito jovens. Para essas pessoas, determinadas ideias não foram apenas ensinamentos religiosos aprendidos na vida adulta. Elas participaram da própria construção da identidade, da moralidade e da maneira como aprenderam a se relacionar consigo mesmas e com os outros.
Expressões bíblicas como “negue-se a si mesmo”, “tome a sua cruz”, “ide por todo o mundo” ou “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” possuem significados teológicos próprios e não são, por si mesmas, abusivas.
O problema aparece quando essas mensagens são utilizadas de maneira sistemática para produzir a ideia de que desejar algo para si é errado, descansar é falta de compromisso, estabelecer limites é egoísmo e priorizar a própria vida significa estar se afastando de Deus.
Nesse contexto, o sujeito pode aprender uma equação perigosa:
ser bom é abandonar a si mesmo.
Quando o abandono de si recebe uma justificativa moral
Existem pessoas que passaram décadas vivendo prioritariamente para uma função.
Estavam disponíveis para a igreja, para o pastor, para os membros, para evangelizar, participar de reuniões, cumprir escalas, atingir metas, trabalhar em eventos, contribuir financeiramente e atender às necessidades dos outros.
Naturalmente, servir, ajudar e participar de uma comunidade podem ser experiências profundamente significativas.
A questão é outra.
O sujeito consegue existir quando não está servindo?
Ele consegue dizer não sem sentir culpa?
Consegue descansar sem precisar justificar o descanso?
Consegue gastar dinheiro consigo sem sentir que está roubando algo de Deus?
Consegue escolher um passeio simplesmente porque deseja passear?
Consegue perguntar:
“O que eu quero?”
Para algumas vítimas de abuso religioso, essa pergunta parece quase proibida.
Winnicott e o perigo de viver excessivamente adaptado
Donald Winnicott pode nos ajudar a compreender esse fenômeno através de sua reflexão sobre o verdadeiro self e o falso self.
De maneira simplificada, Winnicott percebeu que algumas pessoas desenvolvem formas de existência excessivamente adaptadas às expectativas externas. O sujeito aprende a corresponder ao que esperam dele, mas essa adaptação pode ocorrer às custas da espontaneidade.
É importante não transformar automaticamente toda adaptação religiosa em “falso self”. Todos nós fazemos concessões para viver em sociedade.
O problema aparece quando a adaptação se torna tão intensa que a pessoa praticamente perde contato com aquilo que deseja, sente e escolhe.
Em um ambiente religioso abusivo, isso pode adquirir uma força ainda maior porque a exigência institucional pode aparecer revestida de linguagem sagrada.
Não é simplesmente:
“Faça isso porque o líder quer.”
Pode tornar-se:
“Faça isso porque Deus quer.”
E essa diferença é psicologicamente importante.
Discordar de uma pessoa é uma coisa.
Acreditar que, ao discordar dessa pessoa, você está discordando do próprio Deus é outra completamente diferente.
Lacan: o que acontece quando o desejo fica submetido ao Outro?
Jacques Lacan também oferece uma chave importante para essa discussão.
Na psicanálise lacaniana, o Outro não significa simplesmente “outra pessoa”. O conceito aponta, entre outras coisas, para o campo da linguagem, das normas, dos significantes e das referências simbólicas a partir das quais o sujeito aprende quem é e o que se espera dele.
Todos nós somos constituídos nessa relação com o Outro.
O problema não é existir a partir de referências externas. Isso é inevitável.
A questão aparece quando o sujeito encontra enorme dificuldade para reconhecer o próprio desejo para além das demandas que recebeu.
Em determinados ambientes religiosos abusivos, a instituição pode ocupar um lugar tão absoluto que a pessoa passa anos respondendo:
“O que Deus espera de mim?”
“O que o pastor espera de mim?”
“O que a igreja espera de mim?”
“O que vão pensar de mim?”
Mas quase nunca pergunta:
“O que eu desejo?”
E quando finalmente começa a fazer essa pergunta, pode surgir culpa.
Por que a liberdade pode produzir culpa?
Imagine uma pessoa que passou vinte ou trinta anos acreditando que domingo de manhã pertence necessariamente à igreja.
Durante décadas, domingo às nove horas significava culto.
Então ela rompe com aquela instituição.
Algum tempo depois, em um domingo de manhã, recebe um convite:
“Vamos à praia?”
Ela aceita.
Está livre.
Ninguém a obrigou a ir ao culto.
Ela chega à praia, olha o mar, vê outras pessoas se divertindo e, de repente, sente uma angústia difícil de explicar.
“Eu deveria estar na igreja.”
“Estou colocando o lazer acima de Deus.”
“Será que estou me desviando?”
“Será que me tornei egoísta?”
Perceba algo importante:
ela saiu do templo, mas o templo ainda pode continuar funcionando dentro dela.
A instituição já não precisa mandar que ela esteja presente.
A proibição foi internalizada.
É por isso que sair fisicamente de uma instituição pode acontecer em um único dia, enquanto construir uma nova relação com o próprio desejo pode levar muito mais tempo.
O supereu e a culpa
Freud também nos oferece uma contribuição importante através do conceito de supereu.
O supereu está relacionado à internalização de proibições, exigências e ideais. Ele participa da nossa vida moral, mas pode adquirir uma dimensão extremamente severa.
Em determinadas histórias, a pessoa já não precisa de alguém dizendo:
“Você deveria estar servindo.”
Essa voz passa a funcionar internamente.
Ela descansa e sente culpa.
Viaja e sente culpa.
Compra alguma coisa para si e sente culpa.
Diz “não” e sente culpa.
Falta a uma reunião e sente culpa.
Coloca um limite e sente culpa.
É como se existisse dentro dela uma fiscalização permanente perguntando:
“Como você pode estar pensando em você?”
Por isso, depois de anos de autoabandono legitimado religiosamente, o autocuidado pode inicialmente ser experimentado como transgressão.
“Estou ficando egoísta?”
Essa é uma pergunta que pode aparecer durante o processo de reconstrução.
E precisamos fazer uma distinção fundamental.
Colocar-se em primeiro lugar em determinadas situações não significa transformar o outro em alguém sem importância.
Autocuidado não significa ausência de empatia.
Estabelecer limites não significa deixar de amar.
Recuperar o próprio desejo não significa viver sem responsabilidade pelos outros.
Existe uma diferença enorme entre dizer:
“Só eu importo”
e dizer:
“Eu também importo.”
Para alguém que passou anos acreditando que deveria desaparecer para que os outros existissem, começar a dizer “eu também importo” pode parecer radicalmente egoísta.
Mas muitas vezes estamos diante de outra coisa:
o sujeito está aprendendo a se incluir entre as pessoas que considera dignas de cuidado.
Talvez você não esteja se tornando egoísta
Talvez esteja acontecendo algo que você ainda não aprendeu a nomear.
Talvez você esteja conhecendo seus gostos.
Descobrindo como gosta de se vestir.
Escolhendo onde quer passar o domingo.
Aprendendo a descansar.
Viajando.
Indo à praia.
Cuidando do cabelo.
Comprando algo para você.
Recusando convites.
Aceitando outros.
Descobrindo pessoas.
Construindo projetos que não possuem nenhuma utilidade para uma instituição religiosa, mas possuem sentido para você.
No início, tudo isso pode produzir estranheza.
Porque, quando alguém passou muitos anos associando virtude ao sacrifício de si, o prazer pode carregar culpa.
Recuperar o desejo também é reconstruir uma identidade
A saída de uma instituição religiosa abusiva não envolve apenas abandonar determinadas crenças ou práticas.
Em alguns casos, existe um trabalho muito mais profundo:
descobrir quem sou quando não estou desempenhando a função que me deram.
Quem sou quando não estou evangelizando?
Quem sou quando não estou servindo?
Quem sou quando não estou tentando corresponder às expectativas de uma liderança?
Quem sou quando ninguém está me dizendo o que Deus espera de mim?
E talvez uma das perguntas mais importantes seja:
O que eu quero fazer com a minha própria vida?
Para alguém que nasceu ou cresceu dentro de um ambiente no qual o desejo individual foi constantemente colocado sob suspeita, essa pergunta pode ser assustadora.
Mas também pode inaugurar algo novo.
A culpa nem sempre significa que você está fazendo algo errado
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes dessa discussão.
Sentir culpa não prova necessariamente que determinada escolha seja errada.
Às vezes, a culpa aparece justamente porque estamos fazendo algo diferente daquilo que aprendemos durante muitos anos que deveríamos fazer.
Uma pessoa pode sentir culpa ao estabelecer seu primeiro limite.
Pode sentir culpa ao dizer seu primeiro “não”.
Pode sentir culpa ao passar o primeiro domingo longe do templo.
Pode sentir culpa ao gastar consigo o dinheiro que anteriormente entregaria à instituição.
Pode sentir culpa simplesmente por perceber que está feliz.
A culpa, nesses casos, precisa ser escutada e compreendida dentro da história daquele sujeito.
A pergunta deixa de ser apenas:
“Por que estou me sentindo culpado?”
E pode se transformar em:
“Que regra antiga dentro de mim estou transgredindo ao escolher viver dessa maneira?”
Essa mudança de pergunta pode ser profundamente importante.
Porque talvez aquilo que hoje parece egoísmo seja, na verdade, uma experiência ainda desconhecida de autonomia.
Depois de passar tantos anos aprendendo a negar a si mesmo, recuperar o próprio desejo pode inicialmente parecer uma transgressão.
A liberdade pode produzir culpa antes de produzir leveza.
E reconstruir-se depois do abuso religioso talvez envolva justamente aprender que existe uma enorme diferença entre abandonar o outro e parar de abandonar a si mesmo.
Você não precisa deixar de amar o próximo para finalmente aprender a incluir a si mesmo nesse amor.







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