Capturado pelo desejo: por que pessoas inteligentes permanecem anos em sistemas religiosos abusivos?

Capturado pelo desejo: por que pessoas inteligentes permanecem anos em sistemas religiosos abusivos?
Uma das perguntas mais dolorosas feitas a quem deixa uma instituição religiosa abusiva é: “Mas como você conseguiu ficar tanto tempo lá dentro?”
À primeira vista, pode parecer apenas uma pergunta. Mas ela frequentemente carrega um julgamento: se havia abuso, exploração ou manipulação, por que a pessoa simplesmente não foi embora?
O problema dessa pergunta é que ela parte de uma compreensão equivocada do abuso religioso. Permanecer durante anos — ou mesmo décadas — não significa necessariamente falta de inteligência ou capacidade crítica. O capítulo 14 do livro Traumas Religiosos: como falsos pastores escravizam suas ovelhas, intitulado “Capturado pelo Desejo”, parte justamente dessa questão: em vez de perguntar por que alguém demorou tanto para sair, é preciso compreender como determinados sistemas conseguem capturar pessoas inteligentes, sensíveis e esforçadas durante tanto tempo.
A resposta passa pelo desejo.
A religião encontra uma pessoa que já deseja alguma coisa
Ninguém chega a uma instituição religiosa como uma folha em branco.
As pessoas chegam carregando histórias, necessidades, medos e desejos. Algumas procuram a cura de uma doença. Outras querem salvar o casamento, reconstruir a família, conseguir emprego, vencer uma crise financeira ou encontrar algum sentido para a existência.
Há também quem procure simplesmente um lugar onde possa pertencer.
É nesse ponto que precisamos fazer uma distinção fundamental: o desejo não é criado necessariamente pela instituição. Muitas vezes, ele já estava no sujeito antes de sua chegada.
O sistema abusivo aprende a identificar esse desejo e passa a oferecer uma promessa capaz de capturá-lo.
No capítulo 14, escrevo que a religião pode alcançar diferentes grupos justamente porque consegue adaptar sua promessa às demandas existentes. Em ambientes marcados pela pobreza e pela ausência de perspectivas, pode oferecer prosperidade, proteção e mudança material. Em ambientes economicamente privilegiados, pode responder à solidão, às crises conjugais, ao vazio existencial, à doença ou ao medo da morte.
Por isso, uma das ideias centrais do capítulo pode ser resumida assim:
A captura não começa necessariamente pela ameaça. Muitas vezes, começa pela promessa.
O desejo pode se tornar a porta de entrada para a manipulação
Imagine uma mãe cujo filho está envolvido com drogas.
Ela já tentou conversar, procurou ajuda, perdeu noites de sono e vive angustiada. Um dia, entra em uma igreja e escuta:
“Seu filho vai mudar.”
Pouco depois, assiste ao testemunho de outra mãe contando que o filho também estava nas drogas e que, depois de participar de determinada campanha, sua vida foi transformada.
O que essa mulher encontra?
Não apenas uma doutrina.
Ela encontra uma resposta para o seu desejo.
É justamente aí que a relação pode se tornar perigosa. A instituição pode começar a associar a realização daquele desejo à obediência a determinadas práticas:
“Participe desta campanha.”
“Faça este propósito.”
“Entregue este sacrifício.”
“Não questione.”
“Obedeça ao homem de Deus.”
A pessoa não está simplesmente obedecendo ao pastor. Na experiência subjetiva dela, está tentando salvar o filho.
É isso que torna a captura tão poderosa.
Lacan: quando o meu desejo passa a ser organizado pelo Outro
A psicanálise oferece uma chave especialmente interessante para compreender esse fenômeno.
Jacques Lacan trabalha a relação entre o sujeito, o desejo e o Outro. Dentro de um sistema religioso totalizante, a instituição pode progressivamente ocupar um lugar a partir do qual passa a dizer ao sujeito o que ele deve desejar e como deverá alcançar aquilo que deseja.
A mudança é sutil.
A pessoa inicialmente chega dizendo:
“Eu quero salvar meu casamento.”
Depois de algum tempo, pode passar a pensar:
“Para salvar meu casamento, preciso fazer aquilo que o pastor está mandando.”
Mais tarde:
“Se não fizer, estou desobedecendo a Deus.”
Observe o deslocamento.
O desejo que inicialmente pertencia ao sujeito começa a ser interpretado, organizado e administrado pela instituição.
A pessoa continua desejando, mas os caminhos permitidos para a realização desse desejo passam a ser definidos pelo sistema religioso.
É nesse ponto que a fé pode deixar de funcionar como espaço de espiritualidade e começar a funcionar como instrumento de alienação.
Por que pessoas inteligentes também são capturadas?
Talvez esse seja um dos aspectos mais importantes dessa discussão.
Inteligência não funciona como uma vacina contra manipulação.
O capítulo mostra que determinados mecanismos psicológicos podem tornar extremamente difícil questionar aquilo em que alguém investiu durante anos. Entre eles estão o viés de confirmação, a dissonância cognitiva, a escalada de compromisso, o efeito de ancoragem e a normalização progressiva do abuso.
Quanto mais a pessoa investiu — emocionalmente, financeiramente, socialmente e espiritualmente — maior pode ser o sofrimento envolvido em admitir:
“Talvez aquilo em que acreditei durante tantos anos não fosse aquilo que pensei.”
E existe uma diferença enorme entre perceber uma contradição e suportar emocionalmente as consequências dessa percepção.
Às vezes, questionar significa colocar em risco amizades, casamento, posição social, identidade, comunidade, compreensão de Deus e até a própria ideia de salvação.
Por isso, o problema não é simplesmente: “Ela não percebeu.”
Às vezes ela percebeu.
Mas perceber não significa ainda conseguir sair.
O abuso vai se tornando normal
Há outro elemento fundamental: sistemas abusivos raramente apresentam todas as suas exigências no primeiro dia.
Imagine alguém entrando em uma igreja e ouvindo:
“Você terá que entregar grande parte do seu dinheiro, afastar-se de algumas pessoas, aceitar humilhações, trabalhar gratuitamente, não questionar determinadas autoridades e sentir culpa quando discordar.”
Provavelmente essa pessoa iria embora.
Mas não é assim que normalmente acontece.
Primeiro vem uma pequena concessão.
Depois outra.
Uma cobrança é chamada de cuidado.
Uma humilhação é apresentada como correção.
Uma invasão de privacidade recebe o nome de zelo.
Uma renúncia é chamada de sacrifício.
E aquilo que anteriormente provocaria indignação passa lentamente a fazer parte da normalidade.
O limite não desaparece de uma vez.
Ele vai sendo deslocado.
A dívida que nunca acaba
Existe ainda uma captura extremamente poderosa: a dívida simbólica.
A pessoa chegou sofrendo e foi acolhida.
Alguém conversou com ela.
Ela fez amigos.
Sentiu-se importante.
Talvez tenha conseguido abandonar um vício ou atravessar uma fase muito difícil da vida.
Então aparece uma mensagem silenciosa:
“Depois de tudo que esta igreja fez por você...”
O acolhimento começa a produzir dívida.
Servir deixa de ser espontâneo.
Doar deixa de ser escolha.
Discordar começa a parecer ingratidão.
E sair pode ser experimentado como traição.
O capítulo chama atenção justamente para essa transformação: aquilo que começou como acolhimento pode terminar como mecanismo de captura.
“Se era tão ruim, por que também existem boas lembranças?”
Porque relações abusivas não precisam ser ruins o tempo inteiro.
Esse ponto é essencial.
A instituição pode acolher e ferir.
Pode oferecer pertencimento e produzir medo.
Pode proporcionar amizades e, simultaneamente, controlar comportamentos.
Pode produzir momentos de felicidade enquanto sustenta práticas abusivas.
Essa ambivalência ajuda a compreender frases aparentemente contraditórias de muitas vítimas:
“Eu sofri muito lá dentro, mas também vivi momentos maravilhosos.”
Uma coisa não elimina a outra.
E justamente porque existem vínculos afetivos verdadeiros, lembranças importantes e experiências significativas, romper pode se tornar ainda mais difícil.
Sair pode significar perder o próprio mundo
Depois de vinte ou trinta anos dentro de uma instituição, não estamos falando apenas de frequentar cultos.
Estamos falando de uma cosmovisão.
A religião pode ter organizado as respostas para praticamente todas as grandes perguntas da existência:
Quem sou eu?
Quem é Deus?
Por que sofremos?
O que é certo?
O que é errado?
Quem é meu inimigo?
Qual é minha missão?
O que acontece depois da morte?
Quem será salvo?
Quando alguém começa a questionar esse sistema, portanto, não está simplesmente pensando em mudar de igreja.
Pode estar colocando em dúvida a estrutura que organizava toda a sua realidade.
Por isso algumas pessoas experimentam enorme vazio depois da saída.
Elas conquistaram liberdade, mas ainda precisam descobrir o que fazer com ela.
O medo assume o lugar da vigilância
Em determinado estágio, o líder nem precisa estar presente.
O controle já foi internalizado.
A pessoa pensa em sair e sente culpa.
Questiona e sente medo.
Discorda e imagina estar desagradando a Deus.
Quando tenta confiar na própria percepção, pode ouvir:
“Você está confuso.”
“Isso é o diabo colocando dúvida.”
“Você esfriou espiritualmente.”
“Você está se afastando de Deus.”
A experiência subjetiva do indivíduo passa a ser desautorizada.
Ele aprende a desconfiar de si mesmo e a confiar novamente no sistema.
E quanto menos confia em si, mais precisa da autoridade que lhe diga o que pensar.
Forma-se um círculo.
E por que algumas pessoas voltam?
Talvez uma das partes mais importantes do capítulo seja compreender que sair fisicamente não significa sair psiquicamente.
Uma pessoa que passou décadas respondendo à angústia através de campanhas, jejuns, votos, ofertas, reuniões e rituais desenvolveu padrões de comportamento profundamente arraigados.
Quando surge uma nova crise — doença, desemprego, morte, separação — o antigo caminho pode reaparecer:
“Preciso voltar.”
Isso não significa necessariamente que ela voltou a concordar intelectualmente com tudo.
Pode significar que, diante da angústia, seu psiquismo recorreu ao caminho que aprendeu durante anos como fonte de alívio.
Por isso a reconstrução depois do abuso religioso pode exigir muito mais do que abandonar uma instituição.
É preciso construir novas maneiras de lidar com o sofrimento, novos vínculos, novos significados e, principalmente, uma nova relação com o próprio desejo.
A verdadeira pergunta
Talvez precisemos abandonar definitivamente a pergunta:
“Como você foi capaz de ficar vinte anos nisso?”
E começar a perguntar:
“O que esse sistema ofereceu para que sair se tornasse tão difícil?”
Essa mudança aparentemente pequena transforma completamente nossa compreensão da vítima.
Ela deixa de ser vista como alguém intelectualmente inferior e passa a ser compreendida como um sujeito cuja dor, esperança, necessidade de pertencimento, medo e desejo foram capturados por uma estrutura capaz de transformar necessidades humanas legítimas em instrumentos de controle.
Esse é um dos aspectos mais perversos do abuso religioso:
ele não captura apenas pelo medo daquilo que pode acontecer se você sair.
Ele captura pelo desejo daquilo que você acredita que finalmente receberá se permanecer.
E talvez a libertação mais profunda comece justamente quando o sujeito consegue fazer novamente uma pergunta que durante muito tempo foi respondida por outras pessoas:
“Afinal, o que EU desejo?”
Porque sair de um sistema abusivo não é apenas deixar de obedecer.
É recuperar o direito de desejar, pensar, escolher e existir como sujeito.
Artigo baseado no capítulo 14 — “Capturado pelo Desejo” — do livro Traumas Religiosos: como falsos pastores escravizam suas ovelhas, 4ª edição, de Joberth Rodrigues (2025). A obra apresenta esse capítulo como uma explicação de por que pessoas podem permanecer por anos ou décadas em estruturas religiosas abusivas.







Comentários