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Capturado pelo desejo: por que pessoas inteligentes permanecem anos em sistemas religiosos abusivos?

Foto do escritor: Joberth Rodrigues
Joberth Rodrigues
há 5 dias
7 min de leitura

Capturado pelo desejo: por que pessoas inteligentes permanecem anos em sistemas religiosos abusivos?

Uma das perguntas mais dolorosas feitas a quem deixa uma instituição religiosa abusiva é: “Mas como você conseguiu ficar tanto tempo lá dentro?”

À primeira vista, pode parecer apenas uma pergunta. Mas ela frequentemente carrega um julgamento: se havia abuso, exploração ou manipulação, por que a pessoa simplesmente não foi embora?

O problema dessa pergunta é que ela parte de uma compreensão equivocada do abuso religioso. Permanecer durante anos — ou mesmo décadas — não significa necessariamente falta de inteligência ou capacidade crítica. O capítulo 14 do livro Traumas Religiosos: como falsos pastores escravizam suas ovelhas, intitulado “Capturado pelo Desejo”, parte justamente dessa questão: em vez de perguntar por que alguém demorou tanto para sair, é preciso compreender como determinados sistemas conseguem capturar pessoas inteligentes, sensíveis e esforçadas durante tanto tempo.

A resposta passa pelo desejo.

A religião encontra uma pessoa que já deseja alguma coisa

Ninguém chega a uma instituição religiosa como uma folha em branco.

As pessoas chegam carregando histórias, necessidades, medos e desejos. Algumas procuram a cura de uma doença. Outras querem salvar o casamento, reconstruir a família, conseguir emprego, vencer uma crise financeira ou encontrar algum sentido para a existência.

Há também quem procure simplesmente um lugar onde possa pertencer.

É nesse ponto que precisamos fazer uma distinção fundamental: o desejo não é criado necessariamente pela instituição. Muitas vezes, ele já estava no sujeito antes de sua chegada.

O sistema abusivo aprende a identificar esse desejo e passa a oferecer uma promessa capaz de capturá-lo.

No capítulo 14, escrevo que a religião pode alcançar diferentes grupos justamente porque consegue adaptar sua promessa às demandas existentes. Em ambientes marcados pela pobreza e pela ausência de perspectivas, pode oferecer prosperidade, proteção e mudança material. Em ambientes economicamente privilegiados, pode responder à solidão, às crises conjugais, ao vazio existencial, à doença ou ao medo da morte.

Por isso, uma das ideias centrais do capítulo pode ser resumida assim:

A captura não começa necessariamente pela ameaça. Muitas vezes, começa pela promessa.

O desejo pode se tornar a porta de entrada para a manipulação

Imagine uma mãe cujo filho está envolvido com drogas.

Ela já tentou conversar, procurou ajuda, perdeu noites de sono e vive angustiada. Um dia, entra em uma igreja e escuta:

“Seu filho vai mudar.”

Pouco depois, assiste ao testemunho de outra mãe contando que o filho também estava nas drogas e que, depois de participar de determinada campanha, sua vida foi transformada.

O que essa mulher encontra?

Não apenas uma doutrina.

Ela encontra uma resposta para o seu desejo.

É justamente aí que a relação pode se tornar perigosa. A instituição pode começar a associar a realização daquele desejo à obediência a determinadas práticas:

“Participe desta campanha.”

“Faça este propósito.”

“Entregue este sacrifício.”

“Não questione.”

“Obedeça ao homem de Deus.”

A pessoa não está simplesmente obedecendo ao pastor. Na experiência subjetiva dela, está tentando salvar o filho.

É isso que torna a captura tão poderosa.

Lacan: quando o meu desejo passa a ser organizado pelo Outro

A psicanálise oferece uma chave especialmente interessante para compreender esse fenômeno.

Jacques Lacan trabalha a relação entre o sujeito, o desejo e o Outro. Dentro de um sistema religioso totalizante, a instituição pode progressivamente ocupar um lugar a partir do qual passa a dizer ao sujeito o que ele deve desejar e como deverá alcançar aquilo que deseja.

A mudança é sutil.

A pessoa inicialmente chega dizendo:

“Eu quero salvar meu casamento.”

Depois de algum tempo, pode passar a pensar:

“Para salvar meu casamento, preciso fazer aquilo que o pastor está mandando.”

Mais tarde:

“Se não fizer, estou desobedecendo a Deus.”

Observe o deslocamento.

O desejo que inicialmente pertencia ao sujeito começa a ser interpretado, organizado e administrado pela instituição.

A pessoa continua desejando, mas os caminhos permitidos para a realização desse desejo passam a ser definidos pelo sistema religioso.

É nesse ponto que a fé pode deixar de funcionar como espaço de espiritualidade e começar a funcionar como instrumento de alienação.

Por que pessoas inteligentes também são capturadas?

Talvez esse seja um dos aspectos mais importantes dessa discussão.

Inteligência não funciona como uma vacina contra manipulação.

O capítulo mostra que determinados mecanismos psicológicos podem tornar extremamente difícil questionar aquilo em que alguém investiu durante anos. Entre eles estão o viés de confirmação, a dissonância cognitiva, a escalada de compromisso, o efeito de ancoragem e a normalização progressiva do abuso.

Quanto mais a pessoa investiu — emocionalmente, financeiramente, socialmente e espiritualmente — maior pode ser o sofrimento envolvido em admitir:

“Talvez aquilo em que acreditei durante tantos anos não fosse aquilo que pensei.”

E existe uma diferença enorme entre perceber uma contradição e suportar emocionalmente as consequências dessa percepção.

Às vezes, questionar significa colocar em risco amizades, casamento, posição social, identidade, comunidade, compreensão de Deus e até a própria ideia de salvação.

Por isso, o problema não é simplesmente: “Ela não percebeu.”

Às vezes ela percebeu.

Mas perceber não significa ainda conseguir sair.

O abuso vai se tornando normal

Há outro elemento fundamental: sistemas abusivos raramente apresentam todas as suas exigências no primeiro dia.

Imagine alguém entrando em uma igreja e ouvindo:

“Você terá que entregar grande parte do seu dinheiro, afastar-se de algumas pessoas, aceitar humilhações, trabalhar gratuitamente, não questionar determinadas autoridades e sentir culpa quando discordar.”

Provavelmente essa pessoa iria embora.

Mas não é assim que normalmente acontece.

Primeiro vem uma pequena concessão.

Depois outra.

Uma cobrança é chamada de cuidado.

Uma humilhação é apresentada como correção.

Uma invasão de privacidade recebe o nome de zelo.

Uma renúncia é chamada de sacrifício.

E aquilo que anteriormente provocaria indignação passa lentamente a fazer parte da normalidade.

O limite não desaparece de uma vez.

Ele vai sendo deslocado.

A dívida que nunca acaba

Existe ainda uma captura extremamente poderosa: a dívida simbólica.

A pessoa chegou sofrendo e foi acolhida.

Alguém conversou com ela.

Ela fez amigos.

Sentiu-se importante.

Talvez tenha conseguido abandonar um vício ou atravessar uma fase muito difícil da vida.

Então aparece uma mensagem silenciosa:

“Depois de tudo que esta igreja fez por você...”

O acolhimento começa a produzir dívida.

Servir deixa de ser espontâneo.

Doar deixa de ser escolha.

Discordar começa a parecer ingratidão.

E sair pode ser experimentado como traição.

O capítulo chama atenção justamente para essa transformação: aquilo que começou como acolhimento pode terminar como mecanismo de captura.

“Se era tão ruim, por que também existem boas lembranças?”

Porque relações abusivas não precisam ser ruins o tempo inteiro.

Esse ponto é essencial.

A instituição pode acolher e ferir.

Pode oferecer pertencimento e produzir medo.

Pode proporcionar amizades e, simultaneamente, controlar comportamentos.

Pode produzir momentos de felicidade enquanto sustenta práticas abusivas.

Essa ambivalência ajuda a compreender frases aparentemente contraditórias de muitas vítimas:

“Eu sofri muito lá dentro, mas também vivi momentos maravilhosos.”

Uma coisa não elimina a outra.

E justamente porque existem vínculos afetivos verdadeiros, lembranças importantes e experiências significativas, romper pode se tornar ainda mais difícil.

Sair pode significar perder o próprio mundo

Depois de vinte ou trinta anos dentro de uma instituição, não estamos falando apenas de frequentar cultos.

Estamos falando de uma cosmovisão.

A religião pode ter organizado as respostas para praticamente todas as grandes perguntas da existência:

Quem sou eu?

Quem é Deus?

Por que sofremos?

O que é certo?

O que é errado?

Quem é meu inimigo?

Qual é minha missão?

O que acontece depois da morte?

Quem será salvo?

Quando alguém começa a questionar esse sistema, portanto, não está simplesmente pensando em mudar de igreja.

Pode estar colocando em dúvida a estrutura que organizava toda a sua realidade.

Por isso algumas pessoas experimentam enorme vazio depois da saída.

Elas conquistaram liberdade, mas ainda precisam descobrir o que fazer com ela.

O medo assume o lugar da vigilância

Em determinado estágio, o líder nem precisa estar presente.

O controle já foi internalizado.

A pessoa pensa em sair e sente culpa.

Questiona e sente medo.

Discorda e imagina estar desagradando a Deus.

Quando tenta confiar na própria percepção, pode ouvir:

“Você está confuso.”

“Isso é o diabo colocando dúvida.”

“Você esfriou espiritualmente.”

“Você está se afastando de Deus.”

A experiência subjetiva do indivíduo passa a ser desautorizada.

Ele aprende a desconfiar de si mesmo e a confiar novamente no sistema.

E quanto menos confia em si, mais precisa da autoridade que lhe diga o que pensar.

Forma-se um círculo.

E por que algumas pessoas voltam?

Talvez uma das partes mais importantes do capítulo seja compreender que sair fisicamente não significa sair psiquicamente.

Uma pessoa que passou décadas respondendo à angústia através de campanhas, jejuns, votos, ofertas, reuniões e rituais desenvolveu padrões de comportamento profundamente arraigados.

Quando surge uma nova crise — doença, desemprego, morte, separação — o antigo caminho pode reaparecer:

“Preciso voltar.”

Isso não significa necessariamente que ela voltou a concordar intelectualmente com tudo.

Pode significar que, diante da angústia, seu psiquismo recorreu ao caminho que aprendeu durante anos como fonte de alívio.

Por isso a reconstrução depois do abuso religioso pode exigir muito mais do que abandonar uma instituição.

É preciso construir novas maneiras de lidar com o sofrimento, novos vínculos, novos significados e, principalmente, uma nova relação com o próprio desejo.

A verdadeira pergunta

Talvez precisemos abandonar definitivamente a pergunta:

“Como você foi capaz de ficar vinte anos nisso?”

E começar a perguntar:

“O que esse sistema ofereceu para que sair se tornasse tão difícil?”

Essa mudança aparentemente pequena transforma completamente nossa compreensão da vítima.

Ela deixa de ser vista como alguém intelectualmente inferior e passa a ser compreendida como um sujeito cuja dor, esperança, necessidade de pertencimento, medo e desejo foram capturados por uma estrutura capaz de transformar necessidades humanas legítimas em instrumentos de controle.

Esse é um dos aspectos mais perversos do abuso religioso:

ele não captura apenas pelo medo daquilo que pode acontecer se você sair.

Ele captura pelo desejo daquilo que você acredita que finalmente receberá se permanecer.

E talvez a libertação mais profunda comece justamente quando o sujeito consegue fazer novamente uma pergunta que durante muito tempo foi respondida por outras pessoas:

“Afinal, o que EU desejo?”

Porque sair de um sistema abusivo não é apenas deixar de obedecer.

É recuperar o direito de desejar, pensar, escolher e existir como sujeito.

Artigo baseado no capítulo 14 — “Capturado pelo Desejo” — do livro Traumas Religiosos: como falsos pastores escravizam suas ovelhas, 4ª edição, de Joberth Rodrigues (2025). A obra apresenta esse capítulo como uma explicação de por que pessoas podem permanecer por anos ou décadas em estruturas religiosas abusivas.


 
 
 

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SOBRE O JOBERTH RODRIGUES

Sou psicanalista, escritor e palestrante, com atuação voltada ao acolhimento e tratamento de pessoas que sofreram abusos emocionais, psicológicos e espirituais — especialmente em contextos religiosos.

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