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O mito do livre-arbítrio: será que realmente somos donos das nossas escolhas?

  • Foto do escritor: Joberth Rodrigues
    Joberth Rodrigues
  • 14 de jul.
  • 5 min de leitura

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista

Vivemos em uma cultura que valoriza profundamente a ideia de liberdade individual. Desde cedo aprendemos que somos responsáveis pelas nossas escolhas e que o destino de cada pessoa depende, sobretudo, da sua capacidade de decidir corretamente. Quando alguém alcança sucesso, costuma-se dizer que fez boas escolhas. Quando fracassa, a conclusão quase automática é que escolheu errado. Essa maneira de interpretar a vida parece intuitiva, mas talvez seja muito mais simplista do que imaginamos.

Ao longo da história, filósofos, psicólogos e neurocientistas têm colocado em dúvida a existência de um livre-arbítrio absoluto. A Psicanálise, especialmente através da obra de Sigmund Freud, foi uma das primeiras grandes teorias a questionar seriamente essa crença. O que normalmente chamamos de escolha talvez seja apenas o resultado final de uma longa cadeia de influências biológicas, emocionais, familiares, culturais e sociais que atuam sobre nós desde o nascimento.

No capítulo "O Mito do Livre-Arbítrio", do livro Mentes Programadas, procuro mostrar justamente isso: nossa mente não nasce completamente livre. Ela vai sendo moldada pelo ambiente, pela linguagem, pelas experiências afetivas e pelas crenças que recebemos ao longo da vida. Antes mesmo de aprendermos a falar, já estamos aprendendo a interpretar o mundo através das pessoas que cuidam de nós.

Essa constatação pode parecer desconfortável, porque mexe diretamente com uma das maiores ilusões humanas: a de acreditar que somos totalmente independentes. Entretanto, basta observar a própria realidade para perceber o quanto nossa vida já começa marcada por fatores sobre os quais jamais tivemos qualquer poder de decisão. Ninguém escolhe o país onde nasce, a família que terá, sua condição econômica, sua estrutura genética, sua cultura ou a religião em que será criado. Todos esses elementos chegam antes da consciência e passam a organizar silenciosamente nossa forma de perceber a realidade.

Quando uma criança cresce ouvindo, diariamente, que determinado comportamento agrada a Deus e outro desagrada, que determinadas pessoas são santas e outras estão perdidas, que questionar autoridades espirituais representa rebeldia contra o próprio Criador, essas ideias deixam de ser simples informações religiosas. Elas passam a integrar a própria estrutura psíquica do indivíduo. Depois de muitos anos, ele já não consegue distinguir aquilo que realmente pensa daquilo que aprendeu a pensar.

É justamente nesse ponto que Freud oferece uma das contribuições mais revolucionárias da história da psicologia.

No texto "Uma dificuldade da Psicanálise", publicado em 1917, Freud afirma que a Psicanálise representa a terceira grande humilhação sofrida pelo narcisismo humano. A primeira ocorreu quando Copérnico demonstrou que a Terra não ocupava o centro do universo. A segunda veio com Darwin, ao mostrar que o homem faz parte da evolução das espécies e não ocupa uma posição privilegiada na natureza. A terceira foi provocada pela própria Psicanálise, quando Freud afirmou que a consciência não governa integralmente a vida mental.

É nesse contexto que aparece sua célebre frase:

"O Eu não é senhor em sua própria casa."

Essa afirmação muda completamente nossa maneira de compreender as escolhas humanas.

Freud está dizendo que existe uma parte muito maior da nossa mente funcionando fora da consciência. Pensamentos reprimidos, desejos inconscientes, conflitos infantis, identificações, lembranças esquecidas e experiências traumáticas continuam produzindo efeitos mesmo quando acreditamos estar decidindo racionalmente.

Em outras palavras, o sujeito acredita que está escolhendo livremente, quando muitas vezes apenas está repetindo padrões que desconhece.

A Psicanálise não elimina a responsabilidade individual, mas demonstra que a liberdade psíquica é um processo de conquista, e não um ponto de partida.

Esse entendimento se torna ainda mais profundo quando analisamos o conceito de superego.

Segundo Freud, o superego constitui-se a partir da internalização das figuras de autoridade presentes na infância. Pais, professores, líderes religiosos e demais representantes da autoridade vão deixando marcas que, pouco a pouco, passam a funcionar dentro do próprio sujeito. A voz que antes vinha de fora transforma-se numa voz interna que elogia, condena, acusa, pune e vigia constantemente.

É justamente por isso que muitas pessoas continuam sofrendo anos depois de abandonar uma religião abusiva.

O pastor já não está presente.

A igreja ficou para trás.

Os antigos líderes sequer fazem mais parte da rotina daquela pessoa.

Mesmo assim, a culpa permanece.

Ela sente medo de ser castigada por Deus, receio de estar desagradando ao Criador e vergonha por realizar comportamentos absolutamente comuns fora daquele ambiente religioso. Isso acontece porque a autoridade externa foi incorporada pelo psiquismo. O líder desapareceu, mas seu discurso continua vivo através do superego.

Essa compreensão ajuda a explicar por que tantas vítimas de abuso religioso apresentam intensa dificuldade para reconstruir a própria identidade. Não basta simplesmente abandonar uma instituição. A programação psíquica permanece ativa durante muito tempo, influenciando emoções, pensamentos e decisões.

É exatamente aqui que o discurso do livre-arbítrio pode se transformar em uma poderosa ferramenta de controle psicológico.

Quando uma instituição afirma que tudo depende exclusivamente da escolha individual, toda responsabilidade pelo sofrimento também recai sobre a própria vítima. Se alguém adoece emocionalmente, faltou fé. Se perdeu o casamento, foi porque não orou o suficiente. Se está desempregado, abriu alguma brecha espiritual. Se continua sofrendo, ainda não confiou plenamente em Deus.

Perceba o efeito devastador dessa lógica.

Ela elimina qualquer possibilidade de compreender fatores históricos, sociais, familiares e psicológicos envolvidos no sofrimento humano. Toda complexidade da experiência subjetiva desaparece para dar lugar a uma única explicação: a pessoa escolheu errado.

Essa forma de pensar produz culpa, vergonha e dependência emocional. Em vez de promover autonomia, fortalece ainda mais a necessidade de permanecer submetido à instituição que se apresenta como única capaz de ensinar o caminho correto.

Reconhecer que somos profundamente influenciados pelo ambiente não significa afirmar que somos simples marionetes. A própria Psicanálise nunca sustentou essa ideia. O que ela propõe é algo muito mais interessante: quanto maior o conhecimento que desenvolvemos sobre nossa própria história, maior se torna nossa capacidade de interromper repetições inconscientes.

Não escolhemos nossa infância.

Não escolhemos nossos traumas.

Não escolhemos a família em que crescemos.

Também não escolhemos a maior parte das crenças que recebemos durante os primeiros anos de vida.

Mas podemos escolher compreender essas influências, elaborar essas experiências e construir uma relação diferente com elas.

Talvez essa seja a verdadeira liberdade.

Não uma liberdade absoluta e ilusória, mas a possibilidade de deixar de repetir automaticamente aquilo que um dia foi imposto.

O primeiro passo para essa transformação é reconhecer que nem toda voz que habita nossa mente é realmente nossa. Muitas delas pertencem aos pais, aos professores, aos líderes religiosos e às instituições pelas quais passamos. A Psicanálise nos convida justamente a distinguir essas vozes para que possamos, finalmente, construir uma subjetividade mais autêntica.

Essa talvez seja a maior contribuição de Freud para o debate sobre o livre-arbítrio. Antes de perguntar se somos livres para escolher, talvez devêssemos perguntar quem está escolhendo dentro de nós.

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Este artigo foi desenvolvido a partir do capítulo "O Mito do Livre-Arbítrio" do livro Mentes Programadas – Como a Religião Molda Nossos Pensamentos e Comportamentos, onde aprofundo, de maneira acessível, os mecanismos psicológicos, sociais e psicanalíticos que explicam como nossas crenças são construídas e como ambientes religiosos podem influenciar profundamente nossa identidade e nosso comportamento.

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SOBRE O JOBERTH RODRIGUES

Sou psicanalista, escritor e palestrante, com atuação voltada ao acolhimento e tratamento de pessoas que sofreram abusos emocionais, psicológicos e espirituais — especialmente em contextos religiosos.

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