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Você saiu da igreja, mas a igreja saiu de você?

Foto do escritor: Joberth Rodrigues
Joberth Rodrigues
1 de out.
5 min de leitura

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista

Sair de uma instituição religiosa pode acontecer em um único dia. Você toma uma decisão, deixa de frequentar os cultos, rompe com determinadas lideranças e decide que não quer mais fazer parte daquele sistema. Mas existe uma pergunta muito mais difícil: quanto tempo aquela instituição levará para sair de dentro de você?

Essa é uma das questões que desenvolvo em meu livro Mentes Programadas: como a religião molda nossos pensamentos e comportamentos. Ao longo da obra, procuro mostrar que nossas crenças não existem isoladamente. Elas participam da construção da maneira como interpretamos o mundo, tomamos decisões, experimentamos culpa, lidamos com o medo e até compreendemos quem somos. O livro parte justamente da ideia de que o ambiente, as crenças e os padrões sociais participam da formação de nossos comportamentos e de nossa maneira de perceber a realidade.     

No capítulo “O Cavalo de Tróia”, utilizo uma metáfora para explicar por que romper fisicamente com uma instituição não significa necessariamente romper psicologicamente com tudo aquilo que foi aprendido dentro dela.

O que o Cavalo de Troia tem a ver com a religião?

Na conhecida narrativa da Guerra de Troia, os gregos não conseguiram vencer a cidade apenas atacando suas muralhas. A estratégia foi outra: construíram um enorme cavalo de madeira, esconderam soldados em seu interior e fizeram com que aquilo que parecia um presente fosse levado para dentro da cidade.

O perigo, portanto, atravessou as muralhas disfarçado.

Séculos depois, a mesma imagem passou a ser utilizada na informática. Um “trojan” ou Cavalo de Troia é um programa que aparenta ser legítimo ou inofensivo, mas carrega em seu interior algo capaz de atuar silenciosamente dentro do sistema.

É justamente nesse ponto que a metáfora se torna interessante para pensarmos determinadas experiências religiosas.

Uma pessoa pode abandonar uma instituição, discordar de seus líderes e até reconhecer que sofreu manipulação. Entretanto, isso não significa que todos os medos, crenças e formas de interpretar a realidade construídos durante anos desapareceram.

O templo pode ter ficado para trás, enquanto parte do sistema continua funcionando dentro da pessoa.

A religião pode se transformar em uma forma de interpretar o mundo

Imagine alguém que permaneceu vinte ou trinta anos dentro de um ambiente religioso altamente controlador.

Durante décadas, essa pessoa ouviu explicações sobre dinheiro, casamento, sexualidade, família, sofrimento, doença, sucesso, fracasso, Deus, Satanás, céu, inferno e salvação.

Pouco a pouco, essas explicações podem formar uma verdadeira cosmovisão.

No capítulo, mostro justamente como uma instituição religiosa pode participar de diversas áreas da existência do indivíduo, oferecendo respostas sobre problemas financeiros, familiares e emocionais e influenciando sua maneira de compreender relacionamentos, sociedade, política, espiritualidade e sexualidade.

Quando isso acontece durante muitos anos, não estamos falando simplesmente de algumas opiniões religiosas que podem ser descartadas de uma hora para outra.

Estamos falando de um repertório construído e reforçado ao longo da vida.

Por isso, algumas pessoas saem da instituição, mas continuam experimentando medo quando fazem algo anteriormente considerado pecado. Outras racionalmente já não acreditam no discurso sobre condenação, mas ainda sentem culpa. Algumas deixam de acreditar na autoridade do antigo líder, mas continuam procurando alguém que lhes diga o que devem fazer.

A instituição já não está presente fisicamente.

Mas sua voz pode continuar presente psiquicamente.

É nos momentos de crise que antigas crenças podem reaparecer

Há outro aspecto importante.

Quando a vida está relativamente organizada, uma pessoa pode acreditar que superou completamente determinada experiência religiosa. Entretanto, situações de grande sofrimento podem reativar antigas formas de interpretar a realidade.

Uma doença grave. Um acidente. A perda de alguém. Uma crise financeira. Um problema com um filho. O fim de um relacionamento.

No capítulo, apresento o exemplo hipotético de uma mãe que passou muitos anos em uma instituição religiosa e posteriormente saiu. Se um filho sofre um acidente grave, aquela situação de desespero pode fazer ressurgir respostas aprendidas e repetidas durante décadas: jejum, campanhas, barganhas com Deus e a procura por uma instituição que prometa uma intervenção sobrenatural.

Isso não significa que orar ou ter fé seja, por si só, um problema.

A questão é outra: quanto daquela resposta é uma escolha atual e quanto é uma reação condicionada pelo medo?

Essa distinção é fundamental.

“Isso aconteceu porque você saiu da igreja”

Em ambientes religiosos abusivos, existe ainda outro mecanismo particularmente doloroso.

Enquanto a pessoa está dentro do grupo e sofre, seu sofrimento pode ser interpretado como uma provação de Deus. Ela precisa permanecer firme, obedecer e demonstrar fé.

Mas, quando abandona o grupo e alguma coisa ruim acontece, a interpretação pode mudar completamente: agora o sofrimento seria consequência de sua desobediência.

Perceba a armadilha.

Se sofre dentro, precisa permanecer.

Se sofre fora, precisa voltar.

Dessa maneira, praticamente qualquer acontecimento pode ser utilizado para confirmar a narrativa do próprio sistema.

Isso se torna ainda mais poderoso quando familiares e amigos permanecem ligados à instituição. Em um momento de vulnerabilidade, alguém pode ouvir:

“Está vendo o que aconteceu depois que você saiu?”

“Você perdeu a proteção de Deus.”

“Volte enquanto ainda há tempo.”

Para alguém que passou décadas ouvindo que afastar-se significaria perder a proteção divina, essas palavras podem atingir exatamente os medos que ainda não foram elaborados.

Sair não é o mesmo que se libertar

Esse talvez seja o ponto central.

A ruptura física pode ser rápida. A reconstrução psicológica, não.

No próprio Mentes Programadas, descrevo a desprogramação como uma reestruturação gradual da maneira como a pessoa compreende o mundo, a religião e a autoridade. Esse processo pode ser doloroso porque envolve rever crenças que, durante anos, fizeram parte da própria identidade.

Por isso, algumas pessoas se surpreendem:

“Já faz cinco anos que saí. Por que ainda tenho medo?”

“Eu não acredito mais nisso. Por que ainda sinto culpa?”

“Por que ainda acho que Deus vai me castigar?”

“Por que me sinto mal quando discordo de um pastor?”

Talvez porque compreender racionalmente que uma crença não faz mais sentido não seja suficiente para apagar imediatamente os efeitos emocionais de anos vivendo sob ela.

É aqui que aparece o verdadeiro Cavalo de Troia.

Você fechou a porta para o sistema externo, mas determinadas crenças já haviam atravessado os portões muito antes.

A reconstrução exige mais do que trocar de igreja

Também é possível abandonar uma instituição abusiva e imediatamente procurar outra com estrutura semelhante.

Mudam o nome, o líder e o endereço, mas permanecem a necessidade de autorização, o medo de questionar, a culpa, a submissão e a busca constante por alguém que interprete a vontade de Deus.

Nesse caso, talvez tenha ocorrido uma mudança de instituição sem uma transformação profunda da relação do sujeito com a autoridade religiosa.

Por isso, a reconstrução precisa envolver perguntas difíceis:

Por que acredito nisso?

Essa crença é realmente minha?

De onde vem esse medo?

Por que preciso que outra pessoa autorize minhas escolhas?

Estou fazendo isso porque desejo ou porque tenho medo das consequências de não fazer?

Questionar não significa necessariamente abandonar a fé. Pode significar começar a distinguir fé de medo, espiritualidade de controle e convicção pessoal de condicionamento.

Talvez a pergunta não seja apenas “você saiu?”

A saída de um ambiente religioso abusivo pode representar um passo enorme. Mas talvez seja apenas o começo.

Reconstruir a autonomia significa reaprender a decidir, tolerar dúvidas, entrar em contato com pensamentos diferentes, reconstruir relações e perceber que discordar de uma autoridade religiosa não significa necessariamente estar em guerra com Deus.

No início de Mentes Programadas, explico que escrevi o livro justamente para ajudar pessoas a perceberem como o ambiente pode influenciar sua forma de pensar e, ao mesmo tempo, mostrar que aquilo que foi aprendido também pode ser revisto.     

Por isso, depois de sair de um sistema religioso abusivo, talvez uma das perguntas mais importantes não seja:

“Há quanto tempo você saiu da igreja?”

Mas:

“Quanto da igreja ainda permanece dentro de você?”

Reconhecer esse “Cavalo de Troia” não é motivo para culpa. É justamente a possibilidade de começar a olhar para aquilo que foi internalizado, compreender sua história e construir uma relação mais autônoma com suas crenças, escolhas e com a própria vida.



 
 
 

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SOBRE O JOBERTH RODRIGUES

Sou psicanalista, escritor e palestrante, com atuação voltada ao acolhimento e tratamento de pessoas que sofreram abusos emocionais, psicológicos e espirituais — especialmente em contextos religiosos.

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