Quando servir se torna uma forma de existir: o abandono de si dentro da religião

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista
Na clínica, encontramos com frequência pessoas que parecem extremamente disponíveis. São aquelas que dificilmente dizem “não”, sentem culpa quando estabelecem limites, assumem responsabilidades que não lhes pertencem e estão quase sempre prontas para resolver os problemas dos outros.
À primeira vista, podemos chamar isso de generosidade, dedicação ou altruísmo. No ambiente religioso, então, esse comportamento facilmente recebe uma interpretação espiritual: é alguém “usado por Deus”, comprometido com a obra, disposto a servir, ganhar almas e colocar o Reino de Deus acima de seus próprios interesses.
Mas existe uma pergunta que considero fundamental:
O que acontece quando essa pessoa não está servindo ninguém? Quem ela é quando não existe uma função para desempenhar?
Para algumas pessoas, essa pergunta é profundamente angustiante.
Quando a função oferece ao ego um lugar para existir
Uma infância marcada pelo desamparo, pela ausência de reconhecimento afetivo ou pela necessidade constante de adaptação pode produzir uma relação muito particular com o outro.
A criança aprende, por exemplo, que precisa ser útil para receber atenção. Aprende a não incomodar, a corresponder às expectativas, a cuidar dos outros, a perceber rapidamente o que esperam dela e, sobretudo, a colocar suas próprias necessidades em segundo plano.
A mensagem não precisa ter sido verbalizada. Ela pode ter sido aprendida na própria dinâmica familiar:
“Para que eu tenha um lugar, preciso desempenhar alguma função.”
O problema é que a infância termina, mas essa lógica pode permanecer.
O adulto continua procurando lugares nos quais possa ser necessário. Ele precisa resolver, cuidar, trabalhar, salvar, aconselhar, servir. Estar ocupado deixa de ser apenas uma característica de sua rotina e passa a sustentar alguma coisa de sua própria identidade.
Por isso, algumas pessoas não sabem simplesmente estar.
Elas precisam estar fazendo.
E, principalmente, precisam estar fazendo para alguém.
Freud: a necessidade de ser amado pelo outro
Freud nos ajuda a compreender que o eu não se constitui isoladamente. Nossa relação conosco carrega profundamente as marcas das primeiras relações afetivas.
Em Introdução ao Narcisismo (1914), Freud demonstra a importância do investimento libidinal e da relação com os objetos na constituição do eu. Posteriormente, em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), ele aprofunda a importância das identificações e do ideal na organização psíquica.
Isso nos permite pensar clinicamente uma questão importante: algumas pessoas organizam grande parte de sua existência em torno da necessidade de ocupar um lugar valorizado diante do outro.
Não basta existir.
É preciso ser reconhecido.
É preciso ser necessário.
É preciso corresponder.
Quando essa dinâmica encontra uma instituição capaz de oferecer funções, títulos, reconhecimento e pertencimento, pode acontecer um encaixe extremamente poderoso.
A pessoa que passou boa parte da vida procurando um lugar finalmente recebe um:
obreiro.
evangelista.
pastor.
líder.
missionário.
Agora ela sabe quem é.
O problema começa quando aquilo que deveria ser apenas uma função passa a responder pela própria identidade.
Ela não diz mais apenas:
“Eu exerço essa função.”
Psiquicamente, passa a funcionar como:
“Eu sou porque exerço essa função.”
Winnicott e o perigo de viver excessivamente adaptado
Donald Winnicott oferece uma contribuição ainda mais específica para compreendermos esse fenômeno.
Ao desenvolver sua concepção de verdadeiro self e falso self, Winnicott chama atenção para situações em que a criança precisa adaptar-se excessivamente às exigências do ambiente.
Quando existe um ambiente suficientemente bom, a criança pode experimentar espontaneidade, brincar, desejar e gradativamente desenvolver uma sensação de continuidade de existência.
Mas quando a adaptação ao ambiente se torna excessiva, a criança pode aprender muito cedo a responder prioritariamente ao que vem de fora.
Em vez de perguntar:
“O que eu quero?”
ela aprende a perguntar:
“O que esperam de mim?”
Isso pode produzir adultos extremamente funcionais.
São responsáveis, disponíveis, prestativos e frequentemente admirados.
O sofrimento aparece quando percebemos que, por trás dessa eficiência, pode existir alguém com enorme dificuldade para reconhecer o próprio desejo.
A pessoa sabe perfeitamente aquilo de que os outros precisam.
Mas encontra enorme dificuldade quando perguntamos:
“E você, do que precisa?”
É aqui que a contribuição de Winnicott se torna preciosa. O falso self não significa simplesmente falsidade ou fingimento. Ele pode funcionar como uma organização defensiva construída a partir da necessidade de adaptação.
A pessoa aprendeu a existir correspondendo.
A religião pode oferecer o encaixe perfeito
Determinadas estruturas religiosas podem intensificar essa dinâmica porque oferecem exatamente aquilo que esse funcionamento psíquico procura: função, reconhecimento, pertencimento e uma justificativa moral para o abandono de si.
A pessoa está sempre disponível.
Chega primeiro.
Sai por último.
Aceita mais uma responsabilidade.
Abandona o descanso.
Sacrifica o final de semana.
Deixa projetos pessoais para depois.
Ignora o próprio cansaço.
Tem dificuldade de dizer não.
E tudo isso pode ser interpretado como espiritualidade.
Quanto maior a renúncia, maior parece ser sua fé.
Quanto mais disponível, mais “servo”.
Quanto menos pensa em si, mais “espiritual”.
E assim aquilo que talvez devesse ser escutado como sofrimento pode acabar sendo recompensado pelo grupo.
É por isso que precisamos tomar cuidado para não interpretar toda dedicação religiosa como patológica. Existem pessoas que servem porque desejam servir e encontram nisso realização genuína.
A questão clínica é outra:
essa pessoa consegue não servir?
Ela consegue descansar sem culpa?
Consegue dizer não?
Consegue discordar da liderança?
Consegue estabelecer limites?
Consegue abandonar determinada função sem sentir que abandonou a própria identidade?
Consegue descobrir desejos que não estejam relacionados às necessidades da instituição?
Se a resposta for constantemente negativa, talvez não estejamos falando apenas de compromisso religioso.
Podemos estar diante de alguém cuja existência psíquica ficou excessivamente apoiada na função.
“Ganhar almas” ou precisar desesperadamente ser necessário?
Essa discussão se torna ainda mais delicada porque determinados discursos religiosos oferecem uma narrativa grandiosa para essa disponibilidade.
A pessoa acredita que precisa salvar o mundo.
Precisa evangelizar.
Precisa resgatar alguém.
Precisa estar permanentemente envolvida em alguma atividade.
O discurso consciente pode ser:
“Eu preciso ganhar almas para Deus.”
Mas a escuta clínica precisa ter liberdade para formular outra pergunta:
“O que acontece com você quando ninguém precisa ser salvo?”
Porque talvez exista, por trás do desejo consciente de salvar o outro, uma tentativa inconsciente de salvar a própria sensação de existência.
Enquanto alguém precisa dela, ela tem um lugar.
Enquanto existe uma tarefa, existe identidade.
Enquanto existe alguém para cuidar, existe propósito.
Enquanto existe uma função, existe um eu.
Por isso, retirar a função pode provocar uma angústia desproporcional.
Quando sair da igreja significa perder a si mesmo
Esse ponto ajuda a compreender também por que determinadas pessoas sofrem profundamente depois de deixar instituições religiosas.
Elas não perderam somente uma igreja.
Perderam uma função.
Perderam uma rotina.
Perderam reconhecimento.
Perderam pessoas que confirmavam diariamente quem elas eram.
E, em alguns casos, perderam o principal organizador de sua identidade.
Por isso, depois da saída, pode aparecer uma pergunta assustadora:
“Quem sou eu agora?”
Se durante vinte ou trinta anos alguém existiu como pastor, obreiro, evangelista, esposa de pastor, missionário ou líder, retirar essa função pode produzir uma espécie de vazio identitário.
É justamente nesse momento que o processo terapêutico pode assumir enorme importância.
Não para simplesmente oferecer uma nova função à pessoa, mas para ajudá-la a suportar algo que talvez tenha sido pouco experimentado durante sua história:
existir sem precisar justificar permanentemente sua existência pela utilidade.
Do “precisam de mim” para “eu desejo”
Talvez um dos movimentos mais importantes de um processo analítico nesses casos seja justamente a passagem da pergunta:
“O que esperam de mim?”
para:
“O que eu desejo?”
Isso pode parecer simples, mas para alguém que passou décadas respondendo às necessidades dos outros pode ser profundamente desorganizador.
Dizer “não” pode produzir culpa.
Descansar pode parecer egoísmo.
Colocar limites pode parecer ingratidão.
Escolher a si mesmo pode parecer abandono.
E abandonar uma função pode ser experimentado quase como deixar de existir.
É necessário, portanto, reconstruir gradativamente a possibilidade de uma existência que não dependa exclusivamente do olhar, da necessidade ou da aprovação do outro.
Talvez algumas das pessoas que encontramos extremamente disponíveis não estejam apenas demonstrando generosidade.
Algumas estão tentando desesperadamente garantir um lugar no mundo.
São egos desesperados para existir — e que aprenderam que só poderiam existir enquanto fossem necessários.
A função religiosa pode oferecer temporariamente uma resposta para esse vazio. Mas nenhuma função deveria precisar custar o abandono permanente de si.
Servir pode ser uma escolha saudável quando nasce do desejo.
Mas quando alguém precisa servir para sentir que existe, talvez já não estejamos falando apenas de fé, compromisso ou vocação.
Estamos diante de uma história que precisa ser escutada.
E talvez uma das descobertas mais importantes dessa pessoa em análise seja perceber:
eu posso deixar de exercer uma função sem deixar de existir.







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