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Por que existem testemunhos na Fogueira Santa? A psicologia por trás dos “milagres”

Foto do escritor: Joberth Rodrigues
Joberth Rodrigues
9 de ago.
8 min de leitura

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista

Quem já acompanhou campanhas religiosas como a chamada Fogueira Santa provavelmente já ouviu histórias impressionantes. Pessoas afirmam que conseguiram emprego, abriram empresas, foram curadas, reconstruíram o casamento, quitaram dívidas ou alcançaram uma prosperidade que parecia impossível.

Diante desses relatos, surge uma pergunta importante: se entregar dinheiro em uma campanha religiosa não pode ser demonstrado como causa desses acontecimentos, por que existem tantos testemunhos de pessoas afirmando que funcionou?

A primeira resposta precisa ser dada com muito cuidado: não é necessário afirmar que essas pessoas estão mentindo.

Uma pessoa pode estar sendo completamente sincera quando diz que participou de uma campanha e, algum tempo depois, sua vida melhorou.

O problema está em outra parte do raciocínio.

Uma coisa é afirmar:

“Eu participei da Fogueira Santa e depois consegui um emprego.”

Outra completamente diferente é afirmar:

“Eu consegui o emprego porque participei da Fogueira Santa.”

Entre essas duas afirmações existe algo fundamental: a causalidade.

O testemunho pode demonstrar que alguma coisa aconteceu na vida daquela pessoa. O que ele não consegue demonstrar, sozinho, é o que causou aquilo que aconteceu.

E é justamente aqui que a psicologia, a sociologia e até a estatística podem nos ajudar a compreender por que os testemunhos religiosos parecem tão convincentes.

1. Antes da Fogueira Santa existe uma cultura religiosa

Nenhuma experiência religiosa acontece no vazio.

O Brasil foi profundamente estruturado historicamente pelo cristianismo. Durante gerações, milhões de pessoas aprenderam a interpretar acontecimentos da vida utilizando categorias religiosas.

“Deus abriu a porta.”

“Foi um livramento.”

“Deus colocou aquela pessoa no meu caminho.”

“Foi resposta de oração.”

“Deus permitiu.”

“Era um propósito.”

Isso significa que, quando determinado acontecimento ocorre, o indivíduo não necessariamente procura todas as possíveis explicações para depois concluir que foi uma intervenção divina.

Muitas vezes, a própria cultura já forneceu previamente a linguagem através da qual aquele acontecimento será interpretado.

A religião, portanto, não oferece apenas respostas.

Ela oferece também uma maneira de fazer perguntas e de interpretar aquilo que acontece.

2. Quem procura uma campanha geralmente já está sofrendo

É importante lembrar também que as pessoas normalmente não procuram campanhas como a Fogueira Santa quando tudo está maravilhoso.

Existe uma demanda.

Pode ser desemprego, dívida, doença, casamento em crise, solidão, conflitos familiares, medo, sensação de fracasso ou desesperança.

Em alguns casos, experiências anteriores de abandono, rejeição, desamparo, violência, perdas e insegurança também podem influenciar a maneira como o sujeito se relaciona com instituições capazes de oferecer proteção, pertencimento e autoridade.

Portanto, quando a campanha aparece, ela encontra alguém que já está procurando uma saída. E quanto maior o sofrimento, maior pode ser a necessidade de encontrar uma resposta que organize aquilo que parece caótico.

3. A religião oferece acolhimento, sentido e esperança

Precisamos reconhecer algo importante: a religião pode produzir efeitos psicológicos e sociais reais. Uma pessoa que estava completamente desorganizada pode entrar em uma comunidade religiosa, estabelecer vínculos, construir uma rotina, abandonar determinados comportamentos destrutivos, encontrar amigos, recuperar esperança e começar a enxergar possibilidades que anteriormente não enxergava.

Tudo isso pode produzir mudanças concretas.

O problema começa quando todos esses fatores são ignorados e a transformação passa a ser apresentada como demonstração de que determinado ritual ou sacrifício financeiro produziu sobrenaturalmente o resultado.

São duas afirmações diferentes.

4. Existe um verdadeiro “cardápio” de campanhas

Em determinados ambientes religiosos, praticamente todas as áreas da existência podem ser colocadas dentro de uma campanha.

Existe campanha para a família.

Campanha para a vida financeira.

Campanha para a saúde.

Campanha para o casamento.

Campanha para encontrar alguém.

Campanha para libertação espiritual.

Campanha para prosperidade.

Campanha para abrir portas.

Campanha para resolver causas impossíveis.

A pessoa passa a colocar praticamente toda a sua existência dentro dessa estrutura religiosa. Isso produz um fenômeno interessante: quanto mais áreas da vida são colocadas dentro das campanhas, maior será a probabilidade de algum acontecimento positivo posteriormente ser associado a elas.

5. Enquanto ora dentro da igreja, a pessoa luta fora dela

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes.

Imagine alguém desempregado.

Essa pessoa participa de uma campanha pelo emprego. Mas, durante a semana, também envia currículos, conversa com conhecidos, procura vagas, participa de entrevistas e desenvolve novas habilidades.

Depois de três meses, consegue emprego.

O que causou o resultado?

A mesma lógica pode aparecer na saúde.

A pessoa ora, participa de correntes e faz campanhas. Mas também procura um médico, realiza exames, toma medicamentos, faz cirurgia e segue um tratamento.

Depois melhora.

Qual dessas variáveis produziu a melhora?

O problema é que frequentemente existe uma enorme quantidade de fatores atuando simultaneamente, mas uma única explicação recebe todo o crédito.

A medicina trata, o medicamento atua, o organismo responde, o comportamento muda, as circunstâncias se alteram — e, no final, toda a cadeia causal pode desaparecer da narrativa para sobrar apenas: “Foi a campanha.”

6. Acontecer depois não significa acontecer por causa

Existe um erro de raciocínio muito antigo: imaginar que, porque uma coisa aconteceu depois da outra, necessariamente foi causada por ela.

Se eu faço um sacrifício financeiro hoje e consigo emprego dois meses depois, existem dois acontecimentos verdadeiros.

Eu fiz o sacrifício.

Eu consegui o emprego.

Mas a existência desses dois fatos não demonstra automaticamente uma relação causal entre eles.

Em outras palavras: “Aconteceu depois da Fogueira Santa” não significa “aconteceu por causa da Fogueira Santa”. Essa distinção é fundamental.

7. O viés de confirmação

Existe também aquilo que a psicologia chama de viés de confirmação.

Temos uma tendência a perceber, valorizar e recordar informações que confirmam aquilo em que já acreditamos.

Imagine alguém que realizou diversas campanhas ao longo de cinco anos.

Durante esse período, várias coisas pelas quais pediu não aconteceram.

Mas alguma coisa aconteceu.

Conseguiu determinado emprego.

Aquele acontecimento pode ganhar um peso enorme:

“Eu fiz a campanha e Deus respondeu.”

E aquilo que não aconteceu?

Pode receber outras explicações:

“Não era o momento.”

“Deus sabe de todas as coisas.”

“Faltou fé.”

“Não era da vontade de Deus.”

“Deus estava me preparando.”

Perceba a dificuldade: o resultado positivo confirma a crença, enquanto o resultado negativo pode ser reinterpretado de maneira que não a refute.

8. O grande problema dos testemunhos: ninguém mostra o denominador

Imagine uma campanha com 10 mil participantes.

Durante os meses seguintes, é praticamente inevitável que acontecimentos positivos ocorram na vida de algumas dessas pessoas.

Alguém conseguirá emprego.

Alguém venderá uma casa.

Alguém abrirá uma empresa.

Alguém descobrirá uma gravidez desejada.

Alguém terá melhora de sintomas.

Alguém reconstruirá um relacionamento.

Alguém receberá uma indenização.

Alguém quitará uma dívida.

Agora imagine que dez dessas pessoas sejam selecionadas para contar suas histórias diante de milhares.

O público vê os dez casos de sucesso.

Mas não vê os milhares de participantes que fizeram campanhas semelhantes e não obtiveram aquilo que estavam buscando.

Esse é um enorme problema de seleção.

Por isso, diante de qualquer testemunho, existe uma pergunta fundamental:

Quantas pessoas fizeram exatamente a mesma coisa e não receberam aquilo que pediram?

Sem conhecer esse número, não temos como calcular qualquer taxa real de sucesso.

9. Os testemunhos ensinam as pessoas a interpretar a própria vida

Existe ainda outro mecanismo poderoso.

Quando uma pessoa escuta semanalmente histórias dizendo:

“Eu fiz e aconteceu.”

“Eu sacrifiquei e consegui.”

“Eu coloquei no altar e Deus respondeu.”

ela não está apenas ouvindo histórias.

Está aprendendo como deverá interpretar sua própria história.

Forma-se um roteiro.

Sacrifício → espera → acontecimento → testemunho.

Quando algo positivo finalmente acontece, a pessoa já possui uma narrativa pronta para encaixá-lo.

O testemunho, portanto, não apenas descreve uma experiência religiosa.

Ele também ensina como produzir significado religioso para experiências futuras.

10. E as curas?

Esse assunto exige ainda mais cuidado.

É inadequado afirmar que toda cura testemunhada é falsa ou que todo sintoma é imaginário.

Existem sintomas e condições que podem ser significativamente influenciados por estresse, ansiedade, expectativa, contexto social, comportamento e estado emocional.

A experiência religiosa pode diminuir ansiedade, produzir esperança, modificar hábitos, estabelecer vínculos sociais e gerar expectativa positiva.

Consequentemente, algumas pessoas podem realmente perceber melhora.

Isso não significa que estavam fingindo anteriormente.

O sofrimento pode ter sido absolutamente real.

Mas novamente precisamos separar duas perguntas:

A pessoa melhorou? e O que produziu essa melhora?

São questões completamente diferentes.

Quanto mais grave e objetivamente mensurável é uma doença, maior a necessidade de evidências médicas e acompanhamento adequado antes de se afirmar que ocorreu uma cura.

11. A religião possui enorme poder psicológico

Uma igreja não precisa curar um câncer para produzir transformações importantes na vida de alguém.

Ela pode mudar comportamentos.

Pode modificar relacionamentos.

Pode alterar hábitos.

Pode oferecer identidade.

Pode produzir pertencimento.

Pode fazer alguém abandonar álcool, drogas ou outros comportamentos prejudiciais.

Pode incentivar disciplina.

Pode criar redes de contato.

Pode aumentar esperança.

Esses fatores podem gerar consequências reais na vida financeira, familiar e social.

Por isso, reconhecer que alguém melhorou depois de entrar numa religião não significa automaticamente reconhecer a explicação sobrenatural apresentada pela instituição.

Um efeito social ou psicológico real não comprova necessariamente a explicação religiosa dada para ele.

12. Quanto maior o sacrifício, maior pode ser a necessidade de acreditar

Aqui aparece outro conceito importante: dissonância cognitiva.

Imagine alguém que entregou uma quantia extremamente significativa.

Talvez tenha vendido algo.

Talvez tenha usado suas economias.

Talvez tenha entregado dinheiro que faria falta.

Depois de realizar um sacrifício tão doloroso, admitir que aquilo não produziu resultado algum pode gerar enorme desconforto psicológico.

Surge uma tensão: “Se isso não funcionou, por que eu fiz tudo aquilo?”

Uma maneira de diminuir essa tensão é encontrar acontecimentos que deem sentido ao sacrifício. Quanto maior o investimento emocional, financeiro e simbólico, mais difícil pode ser reconhecer que talvez não exista relação entre aquilo que foi entregue e aquilo que posteriormente aconteceu.

13. Compromisso e coerência

Existe também nossa necessidade de parecermos coerentes com aquilo que já fizemos e dissemos. A pessoa afirmou publicamente:

“Eu creio.”

“Eu vou sacrificar.”

“Deus vai responder.”

“Eu tenho certeza.”

Depois disso, reconhecer que nada aconteceu pode significar entrar em conflito com a própria declaração anterior.

Por isso, acontecimentos posteriores podem ser reorganizados dentro de uma narrativa que preserve a coerência:

“Não aconteceu exatamente como eu pedi, mas aconteceu algo ainda melhor.”

Não estou dizendo que alguém necessariamente faça isso conscientemente.

Grande parte desses processos ocorre sem que percebamos.

14. O desejo de ser visto e reconhecido

Existe ainda uma dimensão profundamente humana no testemunho: o reconhecimento.

Durante grande parte do tempo, aquela pessoa pode ser apenas mais uma entre centenas ou milhares de membros.

Mas agora sua história é diferente.

Ela sobe ao altar.

Recebe o microfone.

Todos olham para ela.

Sua história é contada.

Ela se transforma em exemplo.

E existe ainda algo simbolicamente maior: ao dizer “Deus me respondeu”, a pessoa não está apenas dizendo alguma coisa sobre Deus.

Também está dizendo alguma coisa sobre si mesma.

“Eu fui vista.”

“Minha oração foi ouvida.”

“Minha fé foi reconhecida.”

“Entre milhões de pessoas, Deus olhou para mim.”

Existe aí uma experiência de singularidade e reconhecimento extremamente poderosa.

O testemunho pode oferecer ao sujeito a sensação de que sua existência foi percebida por uma divindade considerada criadora do céu e da terra.

Isso possui um peso psicológico enorme.

15. Então os testemunhos são mentira?

Essa não é a conclusão.

E talvez essa seja justamente a parte mais importante de toda essa discussão.

Eu não preciso dizer que uma pessoa está mentindo quando afirma:

“Eu fiz a Fogueira Santa e minha vida mudou.”

Talvez sua vida realmente tenha mudado.

Talvez tenha conseguido emprego.

Talvez sua empresa realmente tenha crescido.

Talvez seu casamento tenha melhorado.

Talvez determinados sintomas tenham diminuído.

A questão é outra:

Como podemos saber que foi a entrega financeira feita naquela campanha que produziu aquele resultado?

O testemunho individual não consegue responder a essa pergunta.

Para estabelecer causalidade seriam necessários critérios muito mais rigorosos, comparação entre grupos, controle de outras variáveis e análise também daqueles que participaram e não obtiveram os mesmos resultados.

O testemunho prova a experiência, não necessariamente sua causa

Talvez possamos resumir toda essa discussão em uma única frase:

O testemunho pode demonstrar que alguma coisa aconteceu na vida daquela pessoa. O que ele não demonstra, sozinho, é o que causou aquilo que aconteceu.

É perfeitamente possível respeitar a experiência subjetiva de alguém sem aceitar automaticamente a interpretação causal que foi construída em torno dela.

E é justamente aí que precisamos desenvolver pensamento crítico.

Porque quando milhares de pessoas fazem campanhas simultaneamente, continuam trabalhando, procurando emprego, fazendo tratamentos médicos, conhecendo pessoas, empreendendo, modificando hábitos e vivendo uma existência cheia de acontecimentos imprevisíveis, algumas inevitavelmente terão histórias extraordinárias para contar.

A pergunta que raramente aparece no altar continua sendo:

E todos aqueles que fizeram exatamente a mesma coisa, entregaram o mesmo sacrifício, acreditaram com a mesma intensidade e não receberam aquilo que pediram? Eles também fazem parte dessa história.

A diferença é que normalmente eles não recebem o microfone.


 
 
 

1 comentário


elsa.lopes1981
14 de ago.

O texto expõe o clássico viés de sobrevivência. O sistema psicológico da seita alimenta-se do palco para os poucos casos de sucesso, enquanto aniquila e silencia a dissonância cognitiva da maioria.

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SOBRE O JOBERTH RODRIGUES

Sou psicanalista, escritor e palestrante, com atuação voltada ao acolhimento e tratamento de pessoas que sofreram abusos emocionais, psicológicos e espirituais — especialmente em contextos religiosos.

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