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O Leviatã: religião, poder e a construção das crenças

  • Foto do escritor: Joberth Rodrigues
    Joberth Rodrigues
  • 14 de mar.
  • 5 min de leitura

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista

A história de Jó é um dos dramas mais universais já narrados pela humanidade. Conhecida no Oriente Médio por volta de 2000 a.C., essa narrativa circulava entre diferentes povos e abordava questões profundas da existência humana: o sofrimento, o mal, a dor, a relação entre o homem e Deus, a riqueza e a pobreza.

Segundo o relato, Jó vivia na terra de Uz, um lugar de localização incerta. Era um homem extremamente rico para os padrões da época: possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas. Tinha ainda sete filhos, três filhas e muitos servos. O texto bíblico o descreve como “o maior de todos os do Oriente”, um homem íntegro, reto e temente a Deus.

Contudo, a obra que conhecemos hoje como o Livro de Jó não foi escrita em um único momento histórico. Na verdade, trata-se de uma verdadeira colcha de retalhos literária. Diversos estudiosos afirmam que partes importantes do Antigo Testamento foram redigidas ou reorganizadas no período pós-exílio, quando o povo judeu retornou da Babilônia enfrentando grande miséria e instabilidade.

Nesse contexto, a comunidade de escribas teria ressignificado antigos textos e tradições, transformando-os em instrumentos de fé e esperança para reconstruir a identidade de um povo ferido.

Dentro dessa narrativa aparecem criaturas impressionantes do imaginário antigo, como o Leviatã, o Behemoth e Rahab. Entre os especialistas, há um consenso de que esses elementos possuem forte caráter mítico e simbólico. Eles não pretendem necessariamente descrever animais reais, mas transmitir mensagens teológicas e culturais.

O Leviatã, por exemplo, é descrito como um monstro marinho colossal, indomável e aterrador. No Livro de Jó e em Isaías, ele aparece como uma serpente marinha gigantesca, coberta por uma armadura impenetrável e dotada de uma força devastadora.

O texto bíblico diz:

“Na terra não há coisa que se lhe possa comparar; foi feito para estar sem pavor. Vê tudo que é alto; é rei sobre todos os filhos da soberba.”(Jó 41:33-34)

Essa criatura poderosa fascinou muitas culturas ao longo da história. Durante a Idade Média, a Igreja Católica chegou a associá-la ao demônio representante de um dos pecados capitais.

Mas o Leviatã não ficou restrito ao imaginário religioso.

Séculos depois, o filósofo inglês Thomas Hobbes utilizou essa figura simbólica para descrever algo muito mais concreto: o Estado.

Para Hobbes, o Estado é um “homem artificial”, uma entidade muito mais poderosa do que qualquer indivíduo isolado. Ele existe para garantir ordem, segurança e estabilidade social. Por isso, todos os cidadãos precisam abrir mão de parte de sua liberdade em favor desse poder maior.

Nas palavras do próprio Hobbes, o Estado é:

“um homem artificial, bem mais alto e robusto que o natural, instituído para sua proteção e defesa.”

Nesse modelo, o Leviatã representa o poder supremo da sociedade. É ele quem define as regras, estabelece limites e determina aquilo que pode ou não ser feito.

O problema é que esse Leviatã continua sendo governado por homens — e homens são profundamente subjetivos.

Agora imagine quando o poder político se mistura com o poder religioso.

Surge então aquilo que chamamos de teocracia.

Na teocracia, as leis da sociedade são apresentadas como leis divinas. Como Deus não governa diretamente, seus representantes na Terra — sacerdotes, reis ou líderes religiosos — assumem esse papel.

Durante grande parte da história humana, esse modelo foi extremamente comum. A religião não era apenas uma crença espiritual, mas também um sistema jurídico, político e social.

No entanto, ao longo do tempo, o mundo mudou.

Com o surgimento dos Estados modernos e das democracias, muitos países passaram a separar religião e governo. Isso significa que práticas religiosas passaram a ter limites impostos pelo próprio Estado.

Aquilo que antes podia ser imposto em nome de Deus agora precisa respeitar as leis civis.

Isso criou um desafio enorme para muitas instituições religiosas: como preservar tradições antigas em uma sociedade que já não aceita todas as suas normas?

A resposta encontrada por muitas correntes religiosas foi adaptar suas interpretações.

Algumas leis passaram a ser consideradas parte de uma “antiga aliança”, enquanto outras continuaram sendo defendidas com vigor.

Mas surge então uma pergunta incômoda.

Se muitas leis da Torá deixaram de ser aplicadas, quem decide quais continuam valendo e quais não?

Por exemplo, a própria Bíblia apresenta leis extremamente rígidas, como a pena de morte por adultério ou o apedrejamento de mulheres acusadas de não serem virgens no casamento.

Hoje, essas práticas são consideradas crimes na maioria dos países e foram abandonadas.

O Leviatã — o Estado — simplesmente não permite mais.

Por outro lado, algumas normas religiosas continuam sendo defendidas com enorme entusiasmo.

Um exemplo clássico é o dízimo.

Curiosamente, o dízimo nem sequer aparece entre os Dez Mandamentos. Mesmo assim, tornou-se uma das práticas mais fortemente defendidas por muitos líderes religiosos.

Por quê?

Porque o Estado não o proíbe.

E, principalmente, porque ele atende perfeitamente aos interesses de muitos sistemas religiosos.

Quando uma prática religiosa entra em conflito com as leis do Estado, ela costuma ser reinterpretada como algo pertencente ao passado. Mas quando ela serve aos interesses da instituição, recebe uma nova justificativa teológica.

Ao longo da história, esse processo de adaptação aconteceu inúmeras vezes.

O que hoje parece uma tradição imutável muitas vezes é, na verdade, o resultado de séculos de ajustes, reinterpretacões e disputas de poder.

Vivemos em uma época de informação rápida e acesso ao conhecimento. Isso nos permite observar algo que muitas pessoas no passado não conseguiam perceber:

nossas crenças não surgiram do nada.

Elas foram construídas ao longo da história, influenciadas por sociedades antigas, contextos políticos e interesses institucionais.

E entender esse processo é fundamental.

Porque somente quando compreendemos de onde vieram certas práticas é que podemos decidir conscientemente se queremos continuar seguindo-as.

Essa é justamente a jornada que proponho no meu livro Dízimo: O Maior Assalto da História.

O dízimo é um assunto coringa. Quando digo coringa, refiro-me a um tema central, presente na grande maioria das comunidades religiosas. Trata-se de uma prática extremamente comum, mas que exige uma interpretação cautelosa e muito cuidadosa.

É fundamental mergulhar na história do dízimo e compreender os seus parâmetros: em que contexto ele surgiu, qual era a realidade social daquele período e qual função ele desempenhava naquele momento histórico. Sem esse entendimento, muitas pessoas acabam reproduzindo práticas antigas sem perceber que elas pertencem a realidades completamente diferentes da nossa.

Por isso, todo cristão da era contemporânea precisa dominar esse assunto. Não para abandonar sua fé, mas para protegê-la. Conhecimento é uma das ferramentas mais importantes para evitar abusos em comunidades religiosas que, muitas vezes, se tornaram ambientes espiritualmente e psicologicamente doentes.

Compreender o dízimo hoje não é apenas uma questão teológica; é também uma questão de consciência, autonomia e responsabilidade. Em um mundo onde a informação está cada vez mais acessível, permanecer na ignorância sobre temas tão importantes pode abrir espaço para manipulação e exploração.

Por isso escrevi este livro.

Se você deseja entender a origem do dízimo, suas transformações ao longo da história e como essa prática tem sido usada em muitos contextos religiosos contemporâneos, convido você a conhecer Dízimo: O Maior Assalto da História.

Talvez essa leitura mude a forma como você enxerga uma das práticas mais difundidas — e menos questionadas — do universo religioso.



 
 
 

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SOBRE O JOBERTH RODRIGUES

Sou psicanalista, escritor e palestrante, com atuação voltada ao acolhimento e tratamento de pessoas que sofreram abusos emocionais, psicológicos e espirituais — especialmente em contextos religiosos.

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