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Eu fui programado: como a religião pode moldar sua mente sem você perceber

  • Foto do escritor: Joberth Rodrigues
    Joberth Rodrigues
  • 6 de abr.
  • 5 min de leitura

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista

Durante muito tempo, eu acreditei que estava vivendo uma vida de propósito. Acreditava que cada renúncia que eu fazia, cada sacrifício, cada dor suportada, fazia parte de algo maior. Não era apenas uma escolha — era, na minha cabeça, um chamado. Hoje, olhando para trás, percebo que aquilo que eu chamava de chamado era, na verdade, um processo lento e profundamente eficaz de programação mental.

Nada começa de forma brusca. Nenhum sistema se apresenta como opressor logo de início. Pelo contrário. Ele se apresenta como resposta. Como acolhimento. Como direção. E é justamente por isso que funciona tão bem.

Eu não entrei naquele ambiente buscando ser controlado. Entrei porque, como tantas outras pessoas, eu estava em busca de algo. Sentido, talvez. Pertencimento. Uma explicação para a vida. Uma estrutura que me dissesse o que fazer, como agir, como viver. E ali, naquele ambiente, tudo parecia fazer sentido. Havia uma clareza que o mundo lá fora não oferecia. Havia uma promessa de ordem em meio ao caos.

No início, tudo é leve. A entrada é cuidadosamente construída. Você não é pressionado — você é convidado. Não é confrontado — é acolhido. Há atividades, dinâmicas, eventos que parecem inofensivos, quase banais. Mas, por trás disso, existe uma lógica muito bem estruturada: aproximar, envolver e, aos poucos, integrar.

Foi assim comigo.

Sem perceber, comecei a frequentar mais. Primeiro aos domingos, depois durante a semana. O ambiente era envolvente. Havia uma energia que me atraía, uma intensidade emocional que me fazia sentir parte de algo importante. E esse talvez seja um dos primeiros elementos da programação: a emoção.

A emoção reduz a crítica. Ela não pede análise, ela pede entrega.

Quando você está emocionalmente envolvido, você não questiona — você absorve.

E eu absorvi tudo.

Os discursos, as ideias, as narrativas. Aos poucos, aquilo que antes era apenas algo externo começou a ganhar espaço dentro de mim. E não foi de uma vez. Foi pela repetição. Pela insistência. Pela constância.

A mesma ideia, dita de formas diferentes, em momentos diferentes, em contextos diferentes. Até que ela deixasse de ser uma ideia… e passasse a ser uma verdade.

Eu já não estava apenas ouvindo. Eu estava acreditando.

E mais do que isso: eu estava reorganizando minha forma de ver o mundo com base naquilo.

A partir desse ponto, algo muda profundamente. A programação deixa de ser apenas cognitiva e passa a ser comportamental. Você não apenas acredita — você age conforme aquilo.

Eu me tornei ativo. Presente. Disponível. Sempre havia algo a ser feito, e eu estava ali. Limpar, organizar, ajudar, servir. Tudo era apresentado como parte de algo maior. E eu fazia com prazer.

Esse é um ponto importante: o sistema não apenas exige — ele condiciona você a gostar.

A sensação de estar fazendo a coisa certa é extremamente poderosa. Ela valida, reforça, recompensa. E, ao mesmo tempo, qualquer pensamento que saia desse padrão começa a gerar desconforto.

A dúvida não aparece como dúvida. Ela aparece como culpa.

E a culpa é um dos mecanismos mais eficientes de controle.

Quando você começa a questionar, você não se sente lúcido — você se sente errado. Como se estivesse falhando, traindo algo, decepcionando alguém. E isso te empurra de volta para o padrão.

Foi assim que, aos poucos, eu fui deixando de ser eu.

Meus sonhos começaram a desaparecer. Não de forma abrupta, mas como algo que vai perdendo importância. Aquilo que antes fazia sentido já não fazia mais. Porque agora havia algo maior. Algo “divino”. E diante do divino, tudo o resto parece pequeno.

Eu abri mão de coisas que, hoje, vejo como fundamentais. Estudos, relações, autonomia. Mas, na época, tudo isso parecia não apenas aceitável — parecia necessário.

Porque eu acreditava.

Acreditava que havia sido escolhido. Que tinha uma missão. E poucas coisas são tão sedutoras quanto a ideia de ser escolhido por Deus.

Isso cria uma identidade. Uma narrativa. Um lugar no mundo.

E quando você assume essa identidade, você começa a viver em função dela.

O problema é que, nesse processo, você vai se afastando de tudo que poderia te trazer de volta para si mesmo.

Família. Amigos. Referências externas.

O sistema precisa disso. Não de forma declarada, mas funcional. Porque quanto menos contato você tem com o que é diferente, mais fechado você fica dentro daquela lógica.

E quanto mais fechado, menos você questiona.

Eu não percebia. Esse talvez seja o ponto mais assustador.

Não havia uma imposição clara. Não havia uma voz dizendo “você está sendo controlado”. Pelo contrário. Eu me sentia livre. Convencido. Alinhado.

Mas, na prática, minhas decisões já não eram minhas.

Eu respondia a um sistema.

Um sistema que utilizava elementos muito bem conhecidos da psicologia humana: repetição, reforço, pertencimento, culpa, medo e recompensa.

Se você obedecia, era reconhecido. Se não correspondia, era exposto, questionado, diminuído.

E isso vai moldando você.

Eu vivi situações de humilhação que, hoje, seriam inaceitáveis para mim. Mas, na época, eu interpretava como prova. Como processo. Como algo necessário para o meu crescimento espiritual.

Veja o nível de distorção:

o abuso era reinterpretado como cuidado.

E quando o abuso se torna cuidado na sua mente, você não reage.

Você se submete.

Durante muito tempo, eu vivi assim. Entregue. Convencido. Programado.

Até que algo começou a rachar.

E não foi a razão que provocou isso. Foi a dor.

Chega um momento em que a experiência começa a entrar em conflito com a crença. E esse conflito é insuportável.

Porque, se o sistema está certo, então a dor faz sentido.Mas, se a dor não faz sentido… então talvez o sistema esteja errado.

E admitir isso é extremamente difícil.

Porque, ao questionar o sistema, você não está apenas questionando uma instituição.

Você está questionando:

sua históriasuas escolhassua identidadesua fé

E isso gera um vazio enorme.

Quando comecei a perceber, não senti alívio. Senti medo.

Medo de estar errado.Medo de estar sendo enganado — ou de ter sido.Medo de perder tudo.

Porque, de certa forma, eu sabia: sair não seria apenas sair.

Seria recomeçar.

E recomeçar do zero.

Quando finalmente saí, foi exatamente assim que me senti.

Sem estrutura. Sem direção. Sem identidade clara.

Com culpa. Com medo. Com dor.

E, talvez o mais difícil: com a sensação de que eu mesmo tinha permitido aquilo.

Mas, com o tempo, fui entendendo algo fundamental: eu não fui fraco. Eu fui condicionado.

Fui inserido em um sistema que sabe exatamente como capturar, envolver e moldar pessoas. Um sistema que se alimenta de boas intenções, de vulnerabilidade e de busca por sentido.

E isso muda tudo.

Porque quando você entende que foi programado, você abre a possibilidade de se reprogramar.

Não é rápido. Não é simples. E, muitas vezes, não é confortável.

Mas é possível.

Hoje, olhando para trás, vejo que aquele jovem não era ingênuo — ele era humano.

E talvez você também seja.

E talvez, ao ler isso, algo dentro de você esteja começando a se mover.

Se isso estiver acontecendo, não ignore.

Porque, muitas vezes, a liberdade começa exatamente assim: com uma pequena dúvida que você finalmente permite existir.

Eu conheci a igreja aos 9 anos. Eu era uma criança em estado vulnerável — e isso significa muito. Me batizei aos 15 anos. Fui evangelista, obreiro e pastor. Tudo isso durou 20 anos, contando a partir do meu batismo. Saí da igreja aos 34 anos e, hoje, vivo em constante reconstrução. Caso você tenha vivido algo parecido, não perca a esperança, pois você ainda pode viver uma vida plena.

 
 
 

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SOBRE O JOBERTH RODRIGUES

Sou psicanalista, escritor e palestrante, com atuação voltada ao acolhimento e tratamento de pessoas que sofreram abusos emocionais, psicológicos e espirituais — especialmente em contextos religiosos.

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