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O dia em que eu quase entrei em colapso

  • Foto do escritor: Joberth Rodrigues
    Joberth Rodrigues
  • 7 de mar.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 13 de mar.

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista

Hoje é um dia muito especial.Quero compartilhar com vocês o primeiro capítulo do meu livro “Traumas Religiosos: como falsos pastores escravizam suas ovelhas”.

Nesse capítulo eu abro meu coração.Falo de mim.Falo do meu processo de ruptura depois de quase vinte anos dentro de um sistema religioso que moldou minha vida inteira.

O que você vai ler a seguir não é apenas teoria.É uma experiência real.

É o relato do momento em que tudo dentro de mim começou a desmoronar.

O dia em que minha mente puxou o freio de emergência

Uma cortina de fumaça surgiu diante de mim.

Até hoje não sei explicar exatamente o que aconteceu. Não sei se era memória, emoção ou algum tipo de reação psicológica extrema. Só sei que naquele momento um fenômeno tomou conta do meu corpo:

dissociação.

Foi como se a minha mente, incapaz de suportar o que estava prestes a encarar, tivesse puxado o freio de emergência.

Num segundo eu estava ali, adulto, pai, marido.

No outro, eu tinha 15 anos novamente.

Fiquei preso nesse estado por três dias.Três dias de ruptura com a realidade.Uma espécie de exílio mental.

Hoje eu entendo que aquilo não era loucura.

Era um mecanismo de proteção psíquica.

A dissociação acontece quando a mente se desconecta do presente para evitar um colapso diante da dor.

O momento em que tudo fez sentido

A data não era qualquer data.

Era exatamente o aniversário do meu batismo nas águas, ocorrido dezenove anos antes dentro de uma instituição neopentecostal.

Quando percebi isso, algo dentro de mim desabou.

Eu tinha 34 anos e naquele instante entendi que algo muito grave tinha acontecido comigo ao longo de quase duas décadas.

Era como se a anestesia emocional — aquela mesma que me manteve suportando humilhações, abusos e violências simbólicas por tantos anos — tivesse finalmente perdido o efeito.

A verdade veio de uma vez.

Como um filme passando diante dos meus olhos.

Um filme do qual, de repente, eu não conseguia mais participar.

E então começaram as perguntas.

Perguntas que doíam como facas.

Quem eu seria se naquele dia eu não tivesse parado naquela rodoviária?

Que profissão teria seguido?

Onde teria construído minha vida?

Meu sonho de infância de ser médico teria se tornado realidade?

Como teria sido minha juventude sem aquela prisão disfarçada de fé?

O colapso da identidade

Essas perguntas tinham um nome:

colapso de identidade.

Eu percebi que não sabia quem eu era fora daquela instituição.

Minha vida inteira tinha sido moldada por ela.

Meus gostos.Minhas decisões.Meu vocabulário.Minhas crenças.Meus medos.

Tudo havia sido formatado por aquele sistema.

A identidade que eu carregava não era minha.

E quando essa ficha cai, cai junto o chão onde você pisa.

Quando a vida perde o sentido

A dor veio como um golpe seco.

Uma dor que atravessava corpo, alma, tempo e história.

Uma dor que só quem viveu abuso religioso profundo consegue reconhecer.

A dor de perceber que você dedicou anos da sua vida a algo que nunca foi sobre Deus.

Foi sobre poder.

A partir daí veio outro fenômeno:

a perda de sentido.

Tudo ficou sem cor.

As pessoas perderam o brilho.Os lugares perderam o significado.

Era como se o mundo tivesse ficado distante — e eu ausente dele.

O pensamento mais assustador

E então veio o pensamento mais assustador de todos:

ideação de morte.

Não era vontade de tirar minha própria vida.

Era a sensação de que morrer seria mais fácil do que enfrentar aquela dor psicológica.

Era como se desaparecer fosse um descanso.

Um alívio.

Um silêncio.

Minha filha tinha cinco anos na época.

Ela era o único ponto de luz naquele momento.

Mas nem o abraço dela eu conseguia sentir.

Nem o dela.

Nem o da minha esposa.

Isso também tem nome:

anestesia emocional.

Meu corpo funcionava, mas meus sentimentos estavam desligados.

Hoje eu entendo que ali começava uma depressão profunda.

O estopim do colapso

Dias antes de tudo isso acontecer eu ainda era pastor.

Eu havia deixado a instituição no dia 11 de janeiro de 2018.

Vinte e sete dias antes disso o telefone tocou.

Era a secretária da igreja.

Mas quem estava na linha era o bispo estadual.

Um homem temido.

Um homem acostumado a mandar.

Ele não se identificou.

Apenas perguntou:

“Meu filho, por que você fez isso?”

Antes que eu respondesse ele continuou:

“A equipe de TI descobriu tudo.”

Ele se referia ao meu canal no YouTube, criado semanas antes para denunciar abusos.

Eu ainda não sabia, mas aquele canal se tornaria a voz de milhares de vítimas.

Naquele momento, porém, era apenas o meu grito de socorro.

O primeiro depois de quase duas décadas em silêncio.

Três dias no abismo

Durante três dias eu vivi nesse estado.

Eu ia trabalhar.

Conversava.

Sorria.

Fazia piada.

Mas dentro de mim existia um abismo.

Eu gritava.

Mas só por dentro.

Eu pedia ajuda.

Mas sem emitir som.

Eu estava quebrado.

E escondido.

Minha mente repetia:

“Eu quero morrer. Eles vão ficar bem.”

Hoje eu entendo que aquilo era o impacto psicológico de sair de um sistema abusivo.

O momento em que comecei a voltar

No terceiro dia, às 19h46, algo mudou.

Lembro da hora exata.

Quando cheguei em casa e abracei minha esposa e minha filha, senti algo dentro de mim se mover.

Como se minha alma, depois de três dias submersa, tivesse voltado à superfície.

Fui ao banheiro.

E chorei.

Chorei como nunca tinha chorado.

Parecia que eu estava expelindo anos de silêncio, culpa e humilhação.

Naquela noite dormimos abraçados.

Eu, minha filha e minha esposa.

Ali começou o meu retorno para mim mesmo.

O que eu descobri depois

Eu cresci dentro daquele sistema.

Fui moldado.

Treinado.

Condicionado.

Minha primeira identidade adulta foi construída ali.

Quando saí, saí sem profissão.

Sem estrutura emocional.

E principalmente sem identidade própria.

Hoje eu sei que meu colapso não foi fraqueza.

Foi consequência direta de anos de manipulação, coerção e abuso psicológico.

E sei também que milhares de pessoas passam exatamente por isso.

Pessoas inteligentes.

Boas.

Generosas.

Elas não são burras.

Não são fracas.

Não são ignorantes.

São vítimas.

Vítimas de líderes que sabem exatamente como arrancar tudo — tempo, dinheiro, sonhos, autoestima e autonomia — usando o nome de Deus.

Este capítulo não é apenas minha história.

É a história de milhares de pessoas que ainda não tiveram coragem de contar a própria.

E é por isso que este livro existe.

Porque enquanto você lê este texto, outras vítimas estão surgindo.

E outros abusadores continuam agindo.

Se você quer entender esse mecanismo de abuso

Se você quer entender como funciona o abuso religioso,se você se identificou com essa história,ou se percebeu que talvez também tenha sido vítima desse sistema,

adquira o meu livro:

“Traumas Religiosos: como falsos pastores escravizam suas ovelhas”

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SOBRE O JOBERTH RODRIGUES

Sou psicanalista, escritor e palestrante, com atuação voltada ao acolhimento e tratamento de pessoas que sofreram abusos emocionais, psicológicos e espirituais — especialmente em contextos religiosos.

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