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Ninguém colocou uma arma na sua cabeça: a cultura de culpar a vítima de abuso religioso

Foto do escritor: Joberth Rodrigues
Joberth Rodrigues
8 de ago.
7 min de leitura

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista

Uma das frases mais repetidas quando uma vítima de abuso religioso decide contar sua história é: “Ninguém colocou uma arma na sua cabeça.”

Ela aparece quando alguém relata que entregou grandes quantias de dinheiro, vendeu bens, abriu mão de projetos pessoais, permaneceu durante anos em uma instituição abusiva ou tomou decisões importantes sob influência de uma liderança religiosa.

A conclusão parece simples: “Você fez porque quis.”

Mas será que as escolhas humanas podem ser reduzidas dessa maneira?

Recentemente, publiquei nas minhas redes sociais um trecho de uma entrevista que realizei com um ex-pastor da Igreja Universal. No relato, ele afirma que, quando ainda era muito jovem, aproximadamente entre 19 e 21 anos, realizou uma vasectomia junto com dezenas de outros pastores, em uma sala adaptada dentro de um templo.

A repercussão trouxe novamente um argumento que encontro constantemente quando se fala sobre abuso religioso: “Ninguém obrigou.”

É justamente aí que precisamos falar sobre culpa, autoridade, pertencimento e manipulação psicológica.

A ausência de uma arma não significa ausência de coerção

Quando pensamos em coerção, normalmente imaginamos violência física: alguém ameaçando outra pessoa, segurando uma arma ou impondo uma decisão pela força.

Entretanto, existem formas de controle muito mais sutis.

Uma pessoa pode ser conduzida por medo, culpa, esperança, promessa de recompensa, necessidade de pertencimento e submissão a figuras de autoridade.

É justamente por isso que a frase “ninguém colocou uma arma na sua cabeça” empobrece o debate.

A pergunta não deveria ser apenas: “Ela poderia ter dito não?”

Precisamos perguntar: Em quais condições psíquicas, afetivas, sociais e religiosas essa pessoa estava quando tomou aquela decisão?

Uma escolha formalmente possível nem sempre é uma escolha psicologicamente livre.

Quando a autoridade religiosa ocupa o lugar de Deus

Imagine uma criança que cresce ouvindo que desobedecer aos pais, aos líderes ou às autoridades espirituais pode significar desobedecer ao próprio Deus.

Essa linguagem pode ser internalizada.

Anos depois, quando essa pessoa entra em uma comunidade religiosa fortemente hierarquizada, o pastor pode deixar de ser percebido simplesmente como um homem exercendo uma função institucional.

Ele pode ser investido de uma autoridade muito maior:

“É o homem de Deus.”

“Deus falou através dele.”

“Quem toca no ungido toca em Deus.”

“Se eu desobedecer, posso perder minha bênção.”

“Se eu sair, alguma coisa ruim poderá acontecer comigo.”

Nesse cenário, dizer “não” ao líder pode adquirir, psiquicamente, um significado muito diferente daquele observado por alguém que está fora do grupo.

A pessoa não sente que está simplesmente discordando de outro ser humano.

Ela pode sentir que está desobedecendo ao próprio Deus.

Freud: o sujeito não controla completamente a própria casa

Em O Eu e o Id (1923), Freud apresenta de maneira mais sistemática sua segunda tópica, trabalhando as relações entre id, ego e superego.

A contribuição da psicanálise é fundamental porque rompe com a fantasia de que somos sujeitos completamente transparentes para nós mesmos, capazes de identificar racionalmente todas as forças que determinam nossas escolhas.

Traumas, desejos inconscientes, culpa, medo, identificações, conflitos infantis e experiências de desamparo participam da maneira como nos relacionamos com o mundo.

No contexto religioso abusivo, isso se torna particularmente importante.

O indivíduo pode acreditar que está escolhendo livremente enquanto sua decisão está atravessada por anos de medo, culpa, identificação e submissão.

Por isso, analisar apenas o momento final da decisão é insuficiente.

É necessário compreender a história que tornou aquela decisão possível.

O superego e a culpa religiosa

A religião também pode participar intensamente da formação de um superego severo.

Em ambientes religiosos abusivos, determinadas mensagens podem ser repetidas durante anos:

“Você precisa sacrificar.”

“Deus está vendo sua fidelidade.”

“Quem é de Deus obedece.”

“Não seja rebelde.”

“Não toque no ungido.”

“Quem abandona o altar abandona Deus.”

A autoridade externa pode, progressivamente, transformar-se em uma voz interna.

Chega um momento em que o líder nem precisa estar presente.

O próprio sujeito passa a vigiar, acusar e punir a si mesmo.

Ele sente culpa por não participar.

Culpa por não ofertar.

Culpa por questionar.

Culpa por desejar sair.

Culpa até mesmo por pensar diferente.

Nesse ponto, a prisão mais eficiente já não precisa de grades.

O vigilante foi instalado dentro do próprio sujeito.

Lacan e o lugar daquele que “sabe”

Podemos também pensar essa relação a partir de Lacan e da noção de sujeito suposto saber.

Dentro de determinados contextos religiosos, o pastor pode ocupar imaginariamente o lugar daquele que sabe aquilo que o fiel não sabe.

Ele sabe o que Deus deseja.

Sabe qual decisão deve ser tomada.

Sabe quando a pessoa deve sacrificar.

Sabe se aquele relacionamento vem de Deus.

Sabe se determinada dúvida é espiritual.

Sabe interpretar acontecimentos, sofrimentos e desejos.

Quanto maior a dependência do fiel em relação a essa autoridade, mais difícil pode se tornar questioná-la.

No roteiro do vídeo, sintetizo essa dinâmica dizendo que desobedecer à autoridade pode ser vivido pelo fiel como se estivesse desobedecendo à própria verdade.

É nesse ponto que precisamos compreender que autoridade religiosa e poder psicológico podem caminhar juntos.

Pertencimento também pode ser uma ferramenta de controle

Outro mecanismo poderoso é a necessidade humana de pertencimento.

Instituições religiosas frequentemente são organizadas em grupos menores: jovens, evangelistas, obreiros, diáconos, grupos de oração, líderes e outras subdivisões.

Essas microcomunidades fortalecem vínculos, identidade e pertencimento. Isso não é necessariamente negativo.

O problema surge quando essa estrutura passa a ser utilizada para aumentar pressão, vigilância e conformidade.

Imagine uma campanha religiosa na qual praticamente todos estejam usando uma determinada camisa, fita, broche, colete ou outro símbolo.

Em um culto com 100 pessoas, 90 estão usando aquele símbolo porque aderiram à campanha.

Você está entre os dez que não aderiram.

Formalmente, ninguém colocou uma arma na sua cabeça.

Mas você olha ao redor e percebe:

“Todos estão fazendo.”

Então surgem perguntas:

“Será que minha fé é menor?”

“Será que estou sendo egoísta?”

“Será que Deus está esperando algo de mim?”

“Por que todos ouviram a voz de Deus e eu não?”

O símbolo aparentemente inocente passa a marcar quem pertence e quem está de fora. No roteiro, discuto justamente como esses elementos podem intensificar identificação, culpa e busca por pertencimento.

Winnicott e o falso self religioso

Também podemos estabelecer uma aproximação com Donald Winnicott.

Winnicott desenvolveu o conceito de falso self para pensar determinadas formas de adaptação nas quais o indivíduo passa a responder excessivamente às exigências ambientais.

Transportando essa reflexão para determinados ambientes religiosos, podemos pensar na construção de um falso self religioso.

A pessoa aprende qual personagem precisa representar para continuar pertencendo:

Ela precisa sorrir.

Precisa demonstrar fé.

Precisa concordar.

Precisa sacrificar.

Precisa testemunhar.

Precisa obedecer.

Precisa esconder dúvidas.

Precisa demonstrar que está “bem espiritualmente”.

Aos poucos, pode surgir uma distância entre aquilo que o indivíduo realmente sente e aquilo que acredita precisar demonstrar.

O sujeito vai desaparecendo atrás do personagem religioso que construiu para sobreviver naquele ambiente.

No roteiro, utilizo justamente essa aproximação com Winnicott para pensar um “eu obediente” moldado pelo olhar e pelas expectativas do grupo.

“Mas era só sair”

Essa talvez seja uma das frases mais cruéis dirigidas às vítimas:

“Era só sair.”

O mesmo raciocínio aparece em diferentes relações abusivas.

“Por que ela voltou para o marido que a agredia?”

“Por que continuou naquela igreja?”

“Por que entregou dinheiro?”

“Por que acreditou durante tantos anos?”

“Por que não percebeu antes?”

Porque sair de uma relação abusiva não significa simplesmente atravessar uma porta.

Às vezes significa enfrentar uma estrutura psíquica construída durante décadas.

Significa perder amigos.

Perder identidade.

Perder posição social.

Perder certezas.

Perder uma comunidade.

E, em determinados casos, significa enfrentar o medo de estar perdendo o próprio Deus.

Quem observa de fora enxerga uma porta.

Quem está dentro pode enxergar um abismo.

A vítima não precisa estar acorrentada para estar submetida

É justamente aqui que precisamos abandonar uma visão infantilizada da manipulação.

Manipulação eficiente não precisa funcionar pela força física.

Ela pode operar através da linguagem.

Pode utilizar símbolos.

Pode mobilizar culpa.

Pode explorar esperança.

Pode oferecer pertencimento.

Pode produzir medo.

Pode transformar autoridade humana em autoridade divina.

E pode fazer tudo isso enquanto continua dizendo:

“Você não é obrigado a nada.”

Essa talvez seja uma das formas mais sofisticadas de controle: construir um ambiente no qual determinadas escolhas são continuamente incentivadas, recompensadas e espiritualizadas e, depois, quando surgem as consequências, afirmar que a responsabilidade pertence exclusivamente à vítima.

Culpar a vítima protege o sistema

Existe ainda uma consequência importante.

Quando dizemos simplesmente “você fez porque quis”, retiramos a instituição e a liderança da análise.

Não perguntamos quais discursos foram utilizados.

Não investigamos as relações de poder.

Não analisamos as ameaças espirituais.

Não discutimos a pressão do grupo.

Não questionamos a autoridade.

Não observamos os mecanismos psicológicos envolvidos.

Toda a responsabilidade é colocada sobre quem sofreu.

E o sistema permanece intacto.

É por isso que denunciar essas práticas, produzir informação e permitir que vítimas contem suas histórias é tão importante. O esclarecimento pode ajudar alguém a reconhecer mecanismos que, enquanto estava dentro daquela estrutura, não conseguia perceber.

Quem conhece os mecanismos de manipulação não reduz tudo a “você quis”

Precisamos ter muito cuidado antes de julgar alguém por aquilo que fez enquanto estava submetido a uma relação abusiva.

Isso não significa afirmar que o ser humano não possui qualquer responsabilidade sobre suas decisões.

Significa reconhecer algo muito mais complexo:

a capacidade de escolha pode ser profundamente condicionada pelas circunstâncias psíquicas, sociais, afetivas e religiosas nas quais o sujeito está inserido.

Por isso, quando alguém disser:

“Ninguém colocou uma arma na sua cabeça.”

Talvez seja importante responder:

“A manipulação mais eficiente não precisa de uma arma. Ela consegue fazer com que a vítima participe da própria submissão acreditando que está escolhendo livremente.”

É por isso que costumo resumir essa discussão em uma frase:

Quem compreende os mecanismos sofisticados de manipulação psicológica não culpa a vítima de abuso religioso.

Quer entender melhor como esses mecanismos funcionam?

No meu livro Traumas Religiosos, dedico um capítulo aos “Argumentos que escravizam”, mostrando como determinadas frases, símbolos, discursos e mecanismos de pertencimento podem ser utilizados para produzir culpa, medo e submissão dentro de ambientes religiosos.

Entre esses argumentos está justamente:

“Você não é obrigado a nada.”

A frase parece defender a liberdade, mas pode funcionar como uma maneira de apagar todo o processo de influência que aconteceu antes da decisão.

Se você viveu uma experiência religiosa abusiva, conhece alguém que passou por isso ou deseja compreender melhor os mecanismos psicológicos presentes nessas relações, Traumas Religiosos está disponível em versão impressa e digital.

Conhecimento também é uma forma de romper ciclos.


 
 
 

1 comentário


elsa.lopes1981
14 de ago.

A perversão psicanalítica perfeita: colonizar a subjetividade e alienar o desejo do sujeito, para depois usar a ilusão da 'livre escolha' como álibi para o abuso. O Outro religioso consome a autonomia e culpa o sujeito pelo próprio esvaziamento.

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SOBRE O JOBERTH RODRIGUES

Sou psicanalista, escritor e palestrante, com atuação voltada ao acolhimento e tratamento de pessoas que sofreram abusos emocionais, psicológicos e espirituais — especialmente em contextos religiosos.

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