A igreja pode ser um palco onde o trauma infantil encontrou uma nova forma de existir

Por Joberth Rodrigues – Psicanalista
Quando pensamos em trauma religioso, é comum imaginarmos que todo o sofrimento começou dentro da instituição religiosa. Nem sempre é assim. Em muitos casos, a experiência religiosa não cria originalmente determinadas feridas psíquicas, mas encontra uma pessoa que já carrega marcas profundas de sua história e oferece um novo cenário no qual antigos conflitos podem continuar existindo.
Por isso, costumo dizer: “A igreja pode ser um palco onde o trauma infantil encontrou uma nova forma de existir.”
Essa afirmação não significa que toda igreja seja abusiva, muito menos que toda experiência religiosa seja consequência de um trauma. A religião pode oferecer pertencimento, esperança, vínculos afetivos e sentido para a existência. O problema aparece quando determinadas estruturas religiosas encontram sujeitos vulneráveis e passam a reproduzir, explorar ou intensificar dinâmicas que já estavam presentes em sua história.
A infância deixa marcas na maneira como nos relacionamos
A criança não nasce sabendo quem é. Sua identidade vai sendo construída nas relações com aqueles que exercem funções importantes em sua vida.
É por meio do olhar, do cuidado, da aprovação, da proteção e também das frustrações que ela começa a construir uma representação de si mesma.
Quando o ambiente é suficientemente acolhedor, a criança pode desenvolver maior segurança para experimentar seus próprios desejos, reconhecer seus limites e construir gradativamente sua autonomia.
Entretanto, algumas crianças aprendem muito cedo que precisam corresponder às expectativas do outro para serem amadas.
Precisam obedecer.
Precisam agradar.
Precisam não decepcionar.
Precisam esconder determinados sentimentos.
Precisam ser aquilo que esperam delas.
Em ambientes familiares marcados por autoritarismo, abandono emocional, violência, humilhação ou imprevisibilidade, a criança pode aprender que o amor está condicionado ao seu comportamento.
A mensagem inconsciente pode ser algo parecido com:
“Se eu fizer o que esperam de mim, serei amado. Se eu decepcionar, posso perder o amor.”
A infância termina. Mas essa lógica pode permanecer.
Quando Deus ocupa o lugar daquele que não pode ser decepcionado
Anos depois, essa pessoa pode entrar em um sistema religioso extremamente rígido e encontrar uma linguagem que conversa diretamente com essas marcas.
Agora não são mais apenas os pais que podem ser decepcionados.
É Deus.
Não é mais somente a aprovação familiar que está em jogo.
É a aprovação divina.
O medo de perder o amor pode aparecer transformado no medo de perder a bênção. A necessidade de agradar pode aparecer como necessidade permanente de provar fidelidade. A dificuldade de dizer “não” pode surgir como disponibilidade absoluta para servir.
O sujeito muda de cenário, mas determinadas posições subjetivas permanecem.
É justamente nesse ponto que a religião pode se transformar em um novo palco para conflitos muito antigos.
A repetição não acontece de maneira consciente
Freud percebeu algo fundamental na experiência humana: nem sempre repetimos aquilo que nos faz bem.
Em Além do Princípio do Prazer (1920), ao desenvolver suas reflexões sobre a compulsão à repetição, Freud demonstra que experiências dolorosas podem reaparecer na vida psíquica mesmo quando aparentemente não existe prazer algum nessa repetição.
Isso ajuda a compreender por que determinadas pessoas permanecem durante anos em relações nas quais sofrem.
Não significa que elas desejem conscientemente sofrer.
Significa que existe uma dinâmica psíquica muito mais complexa.
Aquilo que não pôde ser elaborado pode reaparecer em novas relações, novos vínculos e novos cenários.
A pessoa que passou a infância tentando conquistar aprovação pode passar a vida tentando conquistar a aprovação de líderes religiosos.
A criança que tinha medo de decepcionar os pais pode tornar-se o adulto aterrorizado com a possibilidade de decepcionar Deus.
A pessoa que aprendeu que precisava se sacrificar para receber amor pode encontrar enorme dificuldade para perceber como abusiva uma estrutura religiosa que transforma sofrimento e sacrifício em provas de fidelidade.
O trauma muda de linguagem
Essa talvez seja uma das questões mais importantes.
O trauma não precisa retornar com a mesma aparência.
Ele pode mudar de linguagem.
Na infância:
“Se você não obedecer, eu não vou gostar mais de você.”
No ambiente religioso abusivo:
“Se você desobedecer, Deus pode retirar a bênção.”
Na infância:
“Depois de tudo que fiz por você...”
Na instituição:
“Depois de tudo que a igreja fez por você...”
Na infância:
“Você está me decepcionando.”
Na religião:
“Você está decepcionando a Deus.”
Mudaram os personagens. Mudaram as palavras. Mudou o cenário.
Mas determinadas angústias podem continuar funcionando de maneira muito semelhante.
É exatamente por isso que algumas formas de manipulação religiosa conseguem alcançar regiões tão profundas da subjetividade.
Elas não trabalham apenas com aquilo em que a pessoa acredita. Elas podem tocar diretamente em seus medos mais primitivos: abandono, rejeição, culpa, desamparo e perda do amor.
Por que simplesmente sair pode ser tão difícil?
Quem observa de fora costuma perguntar:
“Se estava fazendo mal, por que não saiu?”
Essa pergunta parece lógica para quem enxerga apenas a instituição. Mas torna-se insuficiente quando compreendemos que o vínculo também pode estar sustentado por necessidades psíquicas profundas.
Para algumas pessoas, abandonar determinado sistema religioso não significa simplesmente trocar de igreja.
Pode significar enfrentar novamente o medo de abandono.
Pode significar suportar culpa.
Pode significar perder uma comunidade inteira.
Pode significar questionar a própria identidade.
Pode significar descobrir que grande parte das decisões da vida foi construída a partir das expectativas de outra pessoa ou instituição.
É por isso que frases como “ninguém colocou uma arma na sua cabeça” demonstram profundo desconhecimento sobre os mecanismos psicológicos envolvidos nas relações abusivas.
A coerção humana não acontece somente através da força física.
Medo, culpa, autoridade, dependência emocional, necessidade de pertencimento e ameaça de abandono também podem limitar profundamente a liberdade subjetiva.
Quando a fé encontra o falso self
Donald Winnicott também oferece uma contribuição importante para essa discussão por meio do conceito de falso self.
De maneira resumida, quando o ambiente exige adaptação excessiva, o indivíduo pode aprender a organizar sua existência em torno das expectativas externas, afastando-se progressivamente da espontaneidade e de seus próprios desejos.
Em determinados ambientes religiosos rígidos, isso pode encontrar terreno fértil.
A pessoa aprende como deve se vestir.
Como deve falar.
O que deve pensar.
Com quem deve se relacionar.
Quais sentimentos pode demonstrar.
Quais perguntas pode fazer.
O que deve desejar.
Aos poucos, pode surgir uma pergunta angustiante:
“Quem sou eu quando não estou cumprindo aquilo que esperam de mim?”
Essa pergunta aparece com enorme força em muitas pessoas que deixam sistemas religiosos controladores.
A saída pode revelar uma ferida muito mais antiga
É justamente por isso que sair de uma instituição abusiva nem sempre encerra o sofrimento.
Às vezes, a saída apenas retira o cenário onde determinados conflitos estavam sendo representados.
Quando o palco desaparece, a pessoa finalmente encontra aquilo que estava por trás dele.
O medo.
A culpa.
A necessidade de aprovação.
O sentimento de inadequação.
A dificuldade de estabelecer limites.
O medo de ser abandonado.
A sensação de não saber quem é sem uma autoridade dizendo o que deve fazer.
Nesse momento, o trabalho terapêutico não consiste simplesmente em convencer alguém de que determinada religião estava errada.
É necessário compreender por que aquela estrutura conseguiu ocupar um lugar tão importante em sua economia psíquica.
Essa mudança de pergunta é fundamental.
Em vez de apenas perguntar:
“O que essa instituição fez comigo?”
pode ser necessário, em algum momento do processo, acrescentar:
“O que havia na minha história que encontrou nesse ambiente uma forma de continuar existindo?”
Isso não retira a responsabilidade de instituições ou líderes que praticaram abuso. Pelo contrário. Apenas permite compreender por que determinadas formas de violência psicológica conseguem produzir efeitos tão profundos.
Romper com o abuso não significa necessariamente romper com a fé
Também é importante fazer essa distinção.
A elaboração do trauma religioso não exige necessariamente que uma pessoa abandone sua espiritualidade.
Para algumas pessoas, o processo será justamente separar fé de medo, espiritualidade de controle, pertencimento de submissão e Deus da representação construída por uma instituição abusiva.
Para outras, será necessário afastar-se completamente da religião.
Cada sujeito precisará construir sua própria resposta.
O trabalho terapêutico não deveria determinar em que a pessoa deve acreditar. Ele deve oferecer um espaço no qual ela possa finalmente investigar seus desejos, conflitos, medos e escolhas sem precisar responder novamente às expectativas de uma autoridade.
Talvez a pergunta não seja apenas “por que entrei?”, mas “o que encontrei ali?”
Compreender o trauma religioso exige olhar para além das paredes da igreja.
Algumas histórias começaram muito antes do primeiro culto.
Antes do primeiro pastor.
Antes da primeira campanha.
Antes do primeiro sacrifício.
A instituição pode ter fornecido apenas uma nova linguagem para conflitos que já procuravam um lugar para existir.
E talvez uma das maiores conquistas do processo terapêutico aconteça quando a pessoa consegue perceber essa repetição e começar a construir uma relação diferente consigo mesma.
Não mais viver exclusivamente para receber aprovação.
Não precisar se sacrificar permanentemente para merecer amor.
Não confundir obediência com pertencimento.
E, principalmente, começar a perguntar:
“O que eu desejo quando não preciso mais viver para satisfazer o desejo do outro?”
É nesse ponto que o antigo palco pode começar a perder sua força — e o sujeito pode começar a escrever uma história diferente.
Você viveu uma experiência religiosa abusiva e percebe que, mesmo depois de sair, o medo, a culpa ou a necessidade de aprovação continuam presentes?
O processo terapêutico pode ajudar a compreender não apenas aquilo que aconteceu dentro da instituição, mas também as marcas emocionais que continuam se repetindo depois dela.







Quando a teoria da psicologia se junta à vivência real de quem conhece o sistema por dentro, o resultado é este: verdade nua e crua. Um trabalho de sobrevivência e libertação extraordinário. Parabéns